A greve geral de 4 de junho foi anunciada como um murro na mesa. Acabou por soar mais a porta a fechar devagar.
Houve ruído, houve manchetes, houve o costumeiro desfile de indignação. Mas o país não parou. E quando uma greve geral não consegue suspender verdadeiramente o dia a dia, o que fica é a sensação incómoda de que a força estava mais na intenção do que na realidade.
A verdade é que esta paralisação nasceu já marcada por uma fraqueza de partida: foi a segunda greve geral em oito meses e, desta vez, sem o apoio da UGT.
O contexto não ajudou, mas também não desculpa tudo.
Quando se recorre a uma greve geral, espera-se impacto, pressão e capacidade de mobilização.
O que se viu, no entanto, foi sobretudo uma mobilização desigual e um efeito muito mais limitado do que os promotores queriam fazer crer.
Do lado do Governo, a leitura foi brutalmente simples: a esmagadora maioria dos portugueses continuou a trabalhar, a adesão no setor privado foi residual e, em muitos casos, nula.
Pode discutir-se a forma como esses dados foram apresentados. Mas é difícil negar que a mensagem política saiu vencedora: a greve falhou o objetivo de mostrar um país travado.
Também não ajudou o calendário. Uma greve marcada na véspera de um feriado, com a proximidade de uma ponte, nunca teria o mesmo peso moral de uma paralisação feita em pleno centro de gravidade da semana.
Mesmo quem admita legitimidade ao protesto percebe o problema: quando a data parece escolhida com uma vista curta para o descanso, o gesto perde gravidade e ganha um ar de oportunidade conveniente.
Pior do que isso, a greve expôs uma velha fraqueza da esquerda sindical: a tendência para confundir volume com eficácia. Há anos que o discurso é o mesmo, os termos são os mesmos, a retórica é a mesma.
Mas a sociedade mudou.
Os trabalhadores estão mais dispersos, o tecido empresarial é mais fragmentado e a capacidade de organização sindical já não tem a densidade de outros tempos. Insistir em fórmulas gastas não devolve força ao protesto. Apenas revela o seu desgaste.
No fim, o país ficou com a imagem de um protesto que prometia muito e entregou pouco. Houve perturbações, sim. Houve transtornos para famílias, escolas e serviços. Mas isso, por si só, não faz uma greve vencedora. Faz apenas uma greve incómoda.
E uma greve incómoda, quando não consegue impor uma ideia nem arrancar uma cedência, acaba por ser sobretudo um sinal de fraqueza.
Foi isso que aconteceu em 4 de junho.
Uma greve anunciada em tom de batalha e vivida como um ensaio falhado.
