[Opinião] Relato da Greve Geral

CRÓNICAS/OPINIÃO João Ferreira

Na noite da greve geral, que começa no dia anterior – para quem inicia a jornada no turno noturno – integrei vários piquetes, em solidariedade, mas também para prestar o apoio necessário, inclusive o pouco de saber jurídico que tenho. Nos dias que se seguiram, fui ouvindo opiniões soltas – nas redes sociais – muitas delas, ignorantes, pelo que escrevo este pequeno relato.

Os piquetes de greve, ao contrário do que se propaga, não são espaços de intimidação. Os trabalhadores têm o direito de se reunir em frente aos locais de trabalho, para conversar, explicar, persuadir os trabalhadores a aderirem à greve. Para olhar nos olhos de quem chega ao trabalho e dizer: «Esta luta também é tua.» Essa é a primeira função do piquete. Mas há uma segunda, tantas vezes ignorada: fiscalizar. Vigiar para que o direito à greve não seja violado. Enquanto os holofotes se viram para excertos de vídeos descontextualizados de piquetes em frente a autocarros, que visam descredibilizá-los e, por arrasto, a própria greve, o que verdadeiramente fere esse direito passa pelas sombras. A contratação de novos trabalhadores para substituir os grevistas. O recurso a pessoal de outras empresas do mesmo grupo. A alteração substancial de funções de quem não aderiu, para que faça o trabalho de quem aderiu. A transferência entre estabelecimentos. A imposição de horas extras aos não grevistas para compensar os efeitos da greve. Tudo isto visa esvaziar a greve e atenta contra tal direito fundamental, configurando uma prática criminosa. Quem deteta estas práticas? Quem chama as forças policiais e explica-lhes que se está perante um ilícito criminal? São os trabalhadores que abdicaram de um dia de salário e que, mais do que ninguém, não podem admitir que o seu sacrifício seja em vão. De modo que os piquetes fiscalizam e por essa razão o governo e os patrões querem atacá-los. Daí que tenha observado, com os meus próprios olhos, a polícia de intervenção a ser chamada a deslocar-se previamente a certos locais de trabalho, posicionada estrategicamente, sem qualquer razão aparente, confronto ou desordem, com o claro objetivo de intimidar os piquetes. “Querem que tenhamos medo”, disse uma trabalhadora já veterana de outras lutas. “Mas já vimos pior.” E permaneceram firmes, na madrugada fria, a convencer mais dois colegas a aderir que tinham aparecido de carro a hesitar.

Ao longo do dia, cruzei-me também com dezenas de trabalhadores precários. Jovens, mas também menos jovens. “Quero fazer greve, mas tenho medo de ser despedido.” Esta frase repetiu-se vezes sem conta. Um trabalhador, já nos seus cinquentas, a auferir o salário mínimo, confessou: “Eu até queria parar, mas não posso perder este dia. Se falto, no fim do mês não consigo pagar a renda.” Este é outro poder de coação: não a violência explícita, mas a dependência estrutural decorrente da insegurança. Quanto mais precários, menos livres. E o governo, com o seu pacote laboral, quer precisamente ampliar essa precariedade. Porque sabe que trabalhadores com contratos a prazo e salários baixos veem limitada a sua capacidade de resistência.

A greve incomoda. Incomoda ainda mais a uma minoria a força organizada dos trabalhadores. Porque os direitos que temos hoje – férias pagas, salário mínimo nacional, subsídio de natal, limite máximo de horas de trabalho, dias de descanso semanal – foram conquistados em dias como aquele. Com greves, piquetes, noites em branco e uma extraordinária dose de coragem. Não caíram do céu nem foram oferecidos por bondade patronal. Foram arrancados a ferros. O nosso dever, hoje, é continuar na linha da frente. Não por apreço por noites sem dormir, mas por amor à vida.

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