Quem passa habitualmente à rotunda do Operário Têxtil, já quase nem repara nas esculturas do casal de trabalhadores que compõem o monumento que ali se encontra. Nele, o autor – Laureano Ribatua – ao representar a rigidez e a simplicidade dos personagens, traduz o processo industrial ocorrido no Vale do Ave durante os séculos XIX e XX. A estaticidade das duas figuras, isentas de qualquer representação de ação ou movimento, é entrelaçada por fios de linho ou algodão, que ligam as mãos e os braços dos dois personagens a um totem bem alto que os ampara na face posterior, como um símbolo do poder industrial e administrativo.
Desde o século XIX que os empreendedores do Vale do Ave têm visto a sua memória homenageada em inúmeras instituições e lugares, que vão desde a atribuição de comendas à implantação de bustos, colocação dos seus nomes em praças, monumentos, placas, topónimos de arruamentos e campos de futebol. Os seus apelidos marcaram os espaços e o imaginário público. Industriais e homens de negócios, não raras vezes, além da filantropia, foram provedores das misericórdias locais e administraram instituições públicas, cooperativas, fundações e associações. As mais-valias que alguns destes agentes do processo industrial adicionaram a este território, fizeram com que as memórias da sua existência acabassem por ter uma sobreposição em relação a todas as outras.
Nos espaços e edifícios públicos e coletivos do Vale do Ave, quase não há evocações à memória dos operários e muito menos às operárias…. Há uma ideia, quase enraizada, que nos leva a crer que, em cada concelho, todo o processo industrial só existiu devido às ações de uma meia dúzia de patriarcas plenos, aqueles que, nas suas sagas ao prestígio, compraram títulos de condes, receberam comendas e patrocinaram clubes da bola. Porém esquecemos os obreiros braçais e, entre estes, em especial, as mulheres. As mulheres de ferro e das urdiduras. Sempre ouvi as mais velhas contar que, no tempo da minha avó, nos caminhos que iam dar à “Fábrica de Caniços” (a Empresa Têxtil Elétrica, uma das poucas unidades industriais que possuía uma creche), os homens mais amigos das esposas, deixavam-se ficar para trás, para que não fossem vistos a carregar os filhos ao colo. Perante os companheiros, tinham vergonha de ajudar as esposas, nesta e noutras tarefas. Muitas não tinham essa ajuda e carregavam dois filhos, antes e depois de dias inteiros de trabalho braçal, exíguo e mal remunerado. E se estivessem grávidas era igual. Ninguém parava. Como uma vez ouvi dizer de uma senhora, “era um no fole e dois no regaço”. Não paravam. Prenhes, trabalhavam nos teares da fábrica até ao último dia. Se tudo corresse bem, algumas tinham então quatro semanas de convalescença com vencimento, dependendo da caixa de previdência em que estavam inscritas. As que não tinham, acabavam por ir trabalhar o mais rápido possível porque o dinheiro dos pobres não estica. Só com o 25 de Abril é que todas tiveram direito a 90 dias remunerados.
O pós-parto era preenchido a canjas de galinha acompanhadas de quilos de fraldas para lavar e outros trabalhos domésticos. Mulheres haviam que, à margem da lei, nos teares das grandes unidades fabris, recebiam ao metro – qual medida liberal – num tempo em que a produtividade não se discutia nem se reclamava e a repressão laboral era uma constante. Pior. Além disso, tinham ainda que labutar com a contagem dos metros produzidos, elaborada por chefias zelosas que, num jogo do gato e do rato, perante a iliteracia e o analfabetismo, acabavam sempre por se enganar para o mesmo lado. Em fábricas bem conhecidas por muitos, tinham ainda que se subjugar a todo o tipo de assédios.
O peso destas dificuldades sempre tornou as mulheres mais cientes das necessidades de entreajuda. A memória coletiva destes assuntos permanece tão quieta quanto a mulher representada no Monumento ao Operário Têxtil.
