António Areal foi em busca de um ‘El Dorado’ na África do Sul
Quando perto dos 17 anos de idade saiu do país em direção a França, já o seu pai vivia e trabalhava num subúrbio a sul de Paris. António Areal, atualmente com 78 anos, ouvia dizer que por lá “era o paraíso, comparado com Portugal” e fez-se à vida. Acabou, não por se instalar junto ao pai, mas sim a norte, perto de Lille, bem junto à fronteira com a Bélgica, onde florescia a indústria têxtil, impulsionada pelos trabalhadores transfronteiriços.
Vivia com uma tia. Levantavam-se de madrugada, com temperaturas negativas no Inverno para apanhar ao autocarro e entrar a horas na fábrica onde teve oportunidade de, não só trabalhar, como ir para um centro de formação que conseguiu aprofundar mais tarde, quando se mudou para uma outra empresa. Fazia manutenção e afinação de máquinas, algo que no futuro iria também fazer para o Frame Group, na África do Sul.
Regressou brevemente a Portugal em 1974, já depois da Revolução, altura em que recebeu uma proposta para integrar os quadros de uma empresa em Moçambique, aterrando na cidade da Beira em dezembro, fixando-se em Vila Pery, atualmente Chimoio. Mas com o processo de descolonização em curso, as dúvidas eram muitas.
“Era difícil saber quem geria o quê. Aquela transição criou muito desconforto em muita gente e quando começaram a regressar as tropas portuguesas, cidade ficou vazia”, recorda. Ouvia-se falar da Rodésia como destino, mas após uma entrevista com uma empresa chamada Landau & Archie, percebeu que a África do Sul poderia ser o local certo.
“Moçambique ia tornar-se independente em junho de 75 e como havia aquela apreensão sobre o que iria acontecer, naturalmente quis sair antes e cheguei à África do Sul em maio”, conta. “Fui sem saber o que se ia passar. Fui explorar”.
Instalou-se em Ladysmith, hoje denominada por uMnambithi, a 250 quilómetros de Durban. Uma pequena cidade que “não tinha vida”, cuja adaptação ao estilo de vida anglo-saxónico não foi fácil. Não falava inglês. A barreira da língua, inicialmente era grande. Comunicava em italiano e em francês, sobretudo. Precisava de mudar de ares, mas o melhor que conseguiu dentro da empresa que o empregava e foi transferir-se para Pine Town, nos subúrbios de Durban, junto à costa. “O clima tropical, a vida à noite. Aí já estava no meu elemento”.
A África do Sul, diz, “é um país de oportunidades”, “jovem e em crescimento”, um caldeirão de diversidade, entre etnias locais e estrangeiros de todo o lado. A mescla perfeita para que alguém com visão e determinação pudesse ser bem-sucedido, com as muitas oportunidades de negócio. E a têxtil prestava-se àquele contexto porque é “uma indústria de alta conformidade”. Há elementos fundamentais que são precisos seguir para obter o resultado.
“Fui gerente de uma fiação e o meu sucesso foi reconhecido. Nomearam-me diretor de uma empresa na produção, que englobava o processo vertical. Lá fizeram a avaliação de todas as minhas capacidades e de onde precisava de ajuda. Naturalmente, enviaram-me para a Executive Business School para complementar a formação, essencialmente na parte financeira”, refere, sublinhando que foi managing director de empresas como a Mooi River Textiles, Union Spinning Mills ou a Prilla 2000.

António Areal chegou à África do Sul, em 1975, em pleno regime de apartheid. Assistiu às convulsões sociais que ganharam ímpeto em meados dos anos 80, com Nelson Mandela. Diz, no entanto, que a palavra apartheid tem interpretações diferentes para um europeu do que para um local.
“Um europeu vê como supressiva e agressiva, mas aquilo que encontrei foi um país com disciplina”, lembra. “O problema do apartheid estava na deslocação de pessoas, no facto de tirarem as pessoas das suas terras e a transferi-las para outros sítios para benefício de meia dúzia. Nunca notei ódio por parte do sul-africano branco face ao negro. Era uma questão de oportunidade. O branco tinha prioridade no acesso a empregos estatais e uma multitude de coisas. E naturalmente que o sul africano negro, não. Embora tivessem as suas organizações políticas, não jogavam um papel no decision making”.
Viveu quase tanto tempo no pós-apartheid como antes. O país demorou tempo a consolidar as estruturas de poder: geograficamente gigante, difícil de gerir com todas as suas particularidades internas, a que se junta o facto de ser um território atrativo para imigrantes. Em pouco mais de três décadas passou de 35 milhões de habitantes para praticamente 60 milhões, o que coloca imensa pressão nas infraestruturas, mas abre imensas oportunidades de negócio. “É o El Dorado de África”.
“Vai-se a um supermercado sul-africano e encontram-se produtos da China, do Japão, da Alemanha, da França, da Inglaterra, da Itália. Vai lá tudo ter. É uma diversidade fantástica”, realça. “Ganha-se riqueza quando se trabalha num ambiente com diversidade de pessoas. É excitante, mas ao mesmo tempo, mantém-nos num estado de alerta constante porque exige muito das nossas capacidades”.
Regressa a Portugal em 2015 devido ao colapso do BES, banco no qual tinha todas as suas economias. “Foi a maior fraude que qualquer sistema financeiro jamais permitiu”. António não esconde que se tratou de uma adaptação difícil após mais de cinquenta anos enquanto cidadão do mundo.
“Senti-me estrangeiro no meu próprio país, mas fui-me adaptando”, assegura. Vive em Santo Tirso, gosta de jardinagem, faz os seus passeios, vai ver os amigos ao café, faz uns churrascos. Diz que aquilo que a vida de emigrante lhe ensinou foi a controlar a impulsividade e tolerar a diversidade.
“Com o tempo, observando justamente certas populações, aprendi muito a controlar e a ver a vida de uma maneira mais calma”, remata. “Hoje tento apreciar a vida”.
