[Editorial] Acabar de vez com a passarada no nome da Vila

CRÓNICAS/OPINIÃO Diretor

Em setembro de 1930, nas colunas do Jornal de Santo Thyrso, o Padre Joaquim da Barca escreveu: “As minhas Aves queridas têm hoje uma aspiração muito legítima. (…) Querem ascender à categoria de vila! (…) Eu creio que ainda hei de ter o gosto de ver nas geografias (…) a Vila das Aves.

Quase 25 anos depois, o Padre da Barca celebrou, com os seus contemporâneos, a publicação do Decreto 40 115 do governo da República onde se lê: “Artigo único. É elevada à categoria de vila a povoação de Aves, sede da freguesia do mesmo nome, do concelho de Santo Tirso”.

A categoria de Vila não alterou o nome oficial da freguesia, mas a povoação tida por “sede” da mesma, sempre se identificou com a globalidade da freguesia porque nunca houve um lugar mais restrito a que se chamasse Aves. Por isso, Vila foi sempre toda a freguesia e a freguesia, para toda a gente, Vila das Aves.

Passaram largos anos de celebração e dignificação da Vila das Aves e de consolidação do nome, mesmo sabendo-se que o nome oficial continuava a ser o singelo Aves.

Nome ridículo, escrevia o Padre António de Xisto, em despique com o seu amigo da Barca, também em 1930, defendendo a manutenção do nome de Negrelos na estação do comboio: “Quem passar de viagem no comboio, vendo escrita na Estação a palavra Aves, diz logo: “ali está uma gaiola”; e como Aves é um termo genérico, podem fazer ideia que é um galinheiro que contem galos e galinhas para despachar”.

Felizmente, já há, atualmente, um conhecimento alargado de que Aves não tem que ver com passarada, mas com os dois rios que nos abraçam.

Creio ter sido em época de radicalismo anticlerical que a nossa terra, como muitas outras, perdeu o nome próprio, o do santo patrono, mantendo o determinativo. Foi S. Miguel “d’antreambolos Aves”, “dentre ambas as águas”, “de entre ambos as aves”, “d’aves”, até se fixar em “das Aves”. E depois, santo fora, Aves, apenas. O que é redutor e completamente desligado do sentido original.

Estamos no século XXI e em democracia. Podemos assumir a legitimidade de mudar para criar significado, propondo, a alteração do nome oficial da nossa terra para Vila d’Aves. Esta é uma opção que é mais sugestiva que Vila das Aves ou Vila dos Aves, já que, retirando o género aos rios Ave e Avicela (Vizela), ajuda a desfazer a confusão com a passarada.

Mudado o nome, oficialize-se com ele o brasão e adapte-se o logótipo atual com o nome todo. Mas, antes de mais, coloque-se nesse logótipo a indicação “Junta de Freguesia”, em vez de “Freguesia”, para que se torne claro e óbvio que se trata de uma “imagem de marca” da autarquia e não da Vila. Quando não, dá para pensar que se voltou atrás 71 anos em termos de categoria.

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