É 2022. Aproxima-se o mundial. Portugal tem uma geração jovem e talentosa. Ronaldo, o capitão de equipa e o melhor jogador português da história, tem, aos 37 anos, a oportunidade de ouro de aspirar a um título mundial. Mas as coisas não correram bem no ano que antecedeu o mundial. O Ronaldo, aos 37 anos, não parece ser o mesmo jogador de outrora, e a relação com o seu clube, Manchester United, não é a melhor.
Mas um capitão prepara-se, coloca-se ao serviço do coletivo, dá à equipa em presença simbólica o que futebolisticamente já não alcança, lidera e coloca em segundo plano o interesse individual.
Ronaldo podia tê-lo feito, mas optou pelo contrário. Na véspera de um mundial, concede uma entrevista inenarrável a Piers Morgan (um abutre que se alimenta da crise, da miséria e do caos), na qual se coloca no centro. Tenta transformar as suas guerras pessoais, que deveriam ser privadas, em um desígnio nacional. Num país em que as pessoas vivem com pouco, Ronaldo tenta sensibilizar-nos para a sua condição de “escravo” (palavras do próprio) num clube que lhe paga meio milhão de libras por semana.
O individualismo narcísico sempre foi uma constante na sua personalidade. Mas, dada a sua qualidade, partíamos da assunção, à maneira de Adam Smith, de que a priorização do sucesso individual levaria necessariamente ao sucesso coletivo das equipas em que atuasse. Mas o Ronaldo de 2022 já não é o mesmo jogador. E, ironia das ironias, o mercado futebolístico ajustou-se à depreciação de seu valor. À boca do mundial, nenhum dos tubarões europeus tem interesse nele, nem com um agente como Jorge Mendes (que faz a própria lei de mercado).
Mas Ronaldo opta por um estado de negação delirante a roçar o patológico. Rompe com Mendes, vai para a Arábia, um campeonato futebolisticamente e organizacionalmente anedótico que o próprio faz crer ser melhor do que a Liga Francesa, e reivindica, na seleção (onde se encontram alguns dos melhores jogadores do mundo), a manutenção do seu estatuto.
O pior é que uma parte da população e a própria FPF aderiram ao seu estado de negação.
Ronaldo transportou a entrevista para o estágio, onde chegou mal preparado, e colocou os seus anseios individuais acima da moral do grupo. Tornou-se uma presença tóxica, condicionando fortemente o projeto e o desenho técnico-tático da equipa, que, futebolisticamente, oferecia muito pouco.
Eis que Fernando Santos esgrime uma solução. Senta Ronaldo no banco nos oitavos, contra a Suíça, coloca Ramos em campo e tudo flui de outra forma. A seleção joga bem, vence por 6-1 e Ramos marca três golos. Mas, depressa, o herói virou vilão. Começa uma campanha sobre a ingratidão em relação a Ronaldo. Começou a perseguição, alimentada por teorias da conspiração, contra toda e qualquer crítica a CR7.
No final da prova, a FPF contrata Martinez, com a garantia de que a titularidade de Ronaldo permanece intocável.
Perdemos uma oportunidade histórica de fechar o ciclo e romper o paradigma. Porque se o Ronaldo de 2022 ainda não era um jogador totalmente desinteressante, o de 2024 e, principalmente, o de 2026 são uma sombra. E assim sacrificamos três torneios, um europeu e dois mundiais, seguidos e, com eles, uma geração talentosa.
Soubesse, pelo menos, usar a braçadeira onde os pés já não chegam. Mas não. Em vez de capitanear, nunca deixou de colocar os seus interesses acima dos do grupo. Sucederam uma série de episódios tristes. Quando marca aparece à frente das câmaras, quando perde remete-se ao silêncio e é o primeiro a abandonar o grupo. Enquanto a equipa festejava a passagem aos oitavos de final, em 2022, Ronaldo ocupava-se a discutir a sua pretensa autoria de um dos golos. Quando Bernardo venceu o prémio de melhor jogador da Liga das Nações, amuou. Enquanto os colegas confortavam Félix por um penálti falhado, Ronaldo desertava.
Ronaldo não é a causa de todos os problemas, mas enquanto formos reféns do seu individualismo narcísico, as soluções estar-nos-ão vedadas.
