Creio que, de um modo geral, temos dificuldade em definir com nitidez a linha do tempo e em rememorar as imagens do nosso mundo, local e nacional, de algumas décadas atrás, por poucas que sejam.
Também é verdade que, se muito recuarmos no tempo, nos assalta uma impressão de câmara lenta, ao contrário da rapidez de agora, em que as notícias são instantâneas e os factos registados com múltiplas imagens coloridas. No futuro, guardaremos uma visão mais nítida do “aqui e agora” do que aquela que temos de um passado desfocado e a preto e branco.
O poder local democrático fará este ano cinquenta anos. Pretendo, neste texto, recordar alguns tópicos avulsos para um avivar de memórias relativas à transformação da Vila das Aves.
A Escola Preparatória Alberto Pimentel, hoje Escola Básica do Ave, funcionava, em 1974, no edifício do Patronato. A escola perdeu o patrono e ganhou edifício próprio e adequado com importante contributo local, alguns anos depois.
O “Palácio da Junta”, na Tojela, adquirido para servir como escola primária desde a década de 1930 até depois de 1960 e albergou a Telescola entre 1965 e 1971, serviu também de sede da Junta e de biblioteca pública durante mais de 70 anos. Quando o Patronato foi ocupado pelo Ciclo, também acolheu os escuteiros. O desuso do Palácio da Junta resultou da transformação das Fontainhas e da construção do Centro Cultural e do edifício da Junta no empreendimento lançado pela autarquia em 1987. Desde 2005 que se aventam ideias de recuperação e reutilização do edifício.
A “urbanização da freguesia” não foi apenas uma ideia: houve um anteplano de urbanização delineado e eventualmente aprovado, revisto na década de 1980 com debate público e abandonado quando a norma de planeamento passou a ser o Plano Diretor Municipal (PDM). Nesse plano, a necessária ligação da Rua da Senhora da Conceição à Tojela já aparece bem delineada. Será agora que avança?
O prédio mais alto da Vila, no início dos anos setenta seria aquele que, na Tojela, junto à rotunda de S. Miguel, parece ter reabilitação projetada. Só depois de 25 de Abril apareceram os blocos de habitação da Estação, da Tojela, de Poldrães e os Blocos do Fundo de Fomento da Habitação em Ringe. E depois Fontainhas, Bom Nome… A última década, neste domínio, foi de longe a mais pobre.
A vila, através da Junta de Freguesia, era proprietária da rede de distribuição de energia elétrica e concessionária dum serviço, que pedia meças, em termos de qualidade e eficiência, aos serviços camarários da sede do concelho. A centralização a favor da EDP levou a que Junta e Câmara perdessem o serviço. O património passou para a empresa pública, via câmara, sem que se apurasse o respetivo valor. Nunca houve um acerto de contas. Seria o património de valor superior à dívida acumulada? Nunca saberemos.
A transformação essencial da Vila das Aves nas décadas mais recentes é, sobretudo, caraterizada pelo declínio da indústria têxtil. Edifícios fabris como os da Fábrica de Poldrães, aguardam oportunidade de demolição completa e redefinição de funções. Outros, como a Fiatece e Romão, reestruturam-se para novas atividades. A Rio Vizela ressuscitou parcialmente, mas abriu um buraco imenso no que era a parte construída no final do século XIX e não se vislumbram soluções para o tapar. Do que foi a primeira fiação de algodão do Vale do Ave e a primeira têxtil completa, resta muito pouco e não parece haver nem ideias nem ilusões. Salvaguardem-se, ao menos, alguns símbolos desse passado que ainda resistem, como são os “canudos” e promova-se a requalificação da relíquia de arqueologia industrial que é a central hidroelétrica da Fábrica do Rio Vizela junto à confluência deste rio com o Ave. A autarquia municipal tem por obrigação fazer algo neste sentido, mas precisa de impulso a partir de cá.
Em diferentes ritmos, em diversas circunstâncias e com impulsos mais ou menos certeiros, Vila das Aves mudou muito nos últimos 50 anos. As mudanças do presente ou resultam de impulsos vários ao longo do tempo ou apenas acrescentam alguns pontos ao contínuo de mudança que nos chega do passado. E não devem esconder novos impulsos para o futuro.
Nota: podemos multiplicar os tópicos apresentados.
