O 25 de abril é uma tese que se confirma mal se enuncia, pelo facto de poder vir à luz do dia sem ser rasurada. É data que pessoas como eu, já nascidas em liberdade, assimilaram por negação: “Estes políticos que os pais criticam, não podiam fazê-lo”, “este livro na estante era proibido”, e por aí adiante.
Nascemos num hospital, andamos na escola pública e nunca ouvimos os nossos pais a falar em surdina, a ouvir rádio baixinho com uma jarra em cima (corria o mito de que assim a PIDE não detetava). E parece-nos impensável que pudesse ser de outra maneira. Que algumas coisas nos pudessem ser negadas.
Lembram-se de como éramos aos 18 anos? Quão imaturos e sonhadores. Tantas festas, tantos risos. Seria inconcebível que de repente nos arrastassem de tudo isto e nos enviassem com uma arma nas mãos para um mato africano.
A liberdade de abril soa-nos tão natural que corremos o risco de cair numa espécie de falácia naturalista em que a tomemos como garantida per se. Por outras palavras, que algumas pessoas se deixem seduzir por projetos políticos que ameaçam a nossa liberdade de abril, sem se aperceberem do que está em causa.
Contudo, a cada ano, não é isso que vemos nas ruas, no nosso 25 de abril.
As ruas enchem-se de pessoas que entoam a liberdade com o seu cravo vermelho à lapela.
Muitas delas nasceram bem depois de 74. A liberdade é demasiado preciosa para sequer imaginarem viver privados dela.
Dizem que é uma reação à ascensão da extrema-direita. Que seja, é sinal de que o medo não nos entorpeceu os movimentos e a voz. Que a liberdade é um imperativo inalienável e pelo qual estaremos a lutar sem cessar.
O crescimento dos inimigos de abril pode até assustar-nos, mas, como se provou na segunda volta das presidenciais, a maioria tem um apelo inequívoco à democracia.
Venham mais 52 anos e mais uns quantos. Viva o 25 de abril. Abaixo os fascismos, os velhos e os novos.
