[Opinião] Menos bifes, mais bombas: a fatura que nos passam

CRÓNICAS/OPINIÃO

Em 2012, Isabel Jonet dizia que não podíamos comer bife todos os dias e que tínhamos de aprender a viver mais pobres. Estas declarações lembram a crónica “Os pobrezinhos”, de Lobo Antunes, que descrevia assim a lógica assistencialista e os pobres do Estado Novo: “de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina”.

Passados 14 anos, culpam-se novamente os pobres na febre neoliberal da “literacia financeira”, que substitui o chavão do “empreendedorismo” cunhado por Passos Coelho e que irá salvar todos os portugueses que não conseguem pagar a renda de casa com ensinamentos de poupança e de menos bifes à mesa. Proclamam menos amarras ideológicas, mas orientam a sociedade para a sua ideologia. Não há poupança que nos valha quando o salário do mês não estica face à fatura da guerra que eles apoiam. Nomeio, desde já, os sujeitos políticos que emitem a fatura: PSD, CDS, CH e IL. Proponho um exercício didático para todos eles a partir da realidade de Santo Tirso.

Uma pesquisa no Idealista é suficiente para termos noção dos preços do arrendamento no concelho: para um T1, os preços rondam os 700€. Pensemos no João que recebe o salário mínimo e na Maria e António, casal de idosos com um total combinado de 800 € em reformas, o equivalente a 30 anos de descontos. Para um T1, a renda ocupa quase a totalidade dos rendimentos destas pessoas. Isto não permite a emancipação dos jovens nem um descanso digno a quem trabalhou toda a vida.

Contudo, a direita e o PS têm-se mostrado incapazes em resolver o problema. O aumento dos subsídios de arrendamento para financiar indiretamente os especuladores e isenções fiscais para fundos imobiliários (isenção de IRC, IMT e IMI) é tudo o que nos oferecem. A Câmara de Santo Tirso, mediante manifestação de interesse, propõe T1 para venda desde 124.500,00€, T2 desde 174.500,00€ e T3 desde 236.500,00€, conforme o IHRU, o que é insuficiente para resolver esta crise social. Enquanto não se decide ampliar o parque de habitação pública, apenas o controlo de rendas pode estancar um mercado desregulado que floresce no segmento de luxo. Um flagelo destes não é resolúvel sem regulação dos mercados, uma incumbência constitucional prioritária do Estado, como diz Helena Roseta.

Enquanto a especulação imobiliária nos asfixia, as guerras são financiadas com o nosso suor. Trump e Netanyahu lançam bombas no Médio Oriente e o preço de uma lata de atum aumenta 16% numa semana em Portugal. A conta dispara: mais 120€ para a gasolina e mais 50€ para o gás. Total: mais do que o salário. O pacote laboral vai obrigar a que as horas extraordinárias do João sejam pagas pelo valor normal da hora, o que implica uma perda de até 930 € ao fim do ano. Sobra tempo e dinheiro para o lazer, para comer bife?

Imaginemos um futuro onde rasgamos a fatura deles e recuperamos o combate à pobreza como desígnio nacional. Baixar o preço dos combustíveis, gás e bens alimentares essenciais, diminuindo os impostos sobre o consumo e controlando as margens de lucro. Colocar os lucros extraordinários das gasolineiras e da grande distribuição a pagar a crise do custo de vida. Medidas sensatas, que só encontramos nas vozes da esquerda, urgentes para o tempo dos reis loucos.

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