[Crónica] Memórias de Invasor e Invadido (II)

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

Durante a Guerra Peninsular, em março de 1809, há 213 anos, o Corpo Expedicionário do Exército Francês, sob comando do Marechal Soult, invadiu pela segunda vez Portugal, uma retaliação à invasão da França perpetrada pelo exército luso-espanhol na Campanha do Rossilhão entre 1793 e 1794.

O Corpo Expedicionário francês entrou por Chaves, derrotou os portugueses na Batalha do Carvalho D’ Este em Braga, cidade que ocupou a 20 de março e, para a conquista do Porto, o Marechal dividiu as suas tropas em três partes para ultrapassar o derradeiro obstáculo natural, o Ave. Uma passou com facilidade pela Ponte de Ave, de Bagunte para Macieira da Maia; outra, chegada à passagem a vau da Barca da Trofa, de Ribeirão para São Martinho de Bougado, perante as dificuldades, decidiu passar a montante pela Lagoncinha, de Lousado para Santo Tirso, onde, após alguma resistência, conseguiu atravessar; e uma terceira pela Ponte de Negrelos, de Lordelo para São Martinho do Campo, onde encontraram forte resistência. A 25 de março, alcançaram a margem campense. Porém, a defesa no local obrigou-os a recuar para Lordelo. Finalmente, transpuseram o Vizela de forma definitiva a 26 de março. No entanto, aí tombou na ponte o General Jardon cuja morte está referenciada no Arco do Triunfo, em Paris.    

Dias antes, o General Bernardim Freire de Andrade, nomeado para liderar a resistência do Minho, perante a desorganização e indisciplina das forças portuguesas decidiu que o melhor seria recuar todas as forças de Braga até ao Ave ou ao Porto e aí organizar uma boa oposição. Perante isto, correram boatos que o General era jacobino e acusaram-no de traidor ao serviço dos franceses. Após algumas peripécias, a 19 de março de 1809 acabou, juntamente com o General Custódio Vilas Boas, executado às mãos das milícias, ordenanças e populares bracarenses enquanto decorria a batalha de defesa da cidade em Carvalho D’ Este, em que os portugueses saíram derrotados. Na defesa do Ave, nesses dias também se expurgaram outros supostos traidores. Por exemplo, no livro de óbitos da Paróquia de Santo Tirso refere que a 18 de março foram “presos e mortos pela ordenança” D. João Correia da cidade do Porto (o título de “Dom” indicia que terá sido um nobre, logo um oficial graduado) e Manuel da Costa Ferreira da cidade de Chaves. Em São Martinho de Bougado ocorreram também linchamentos deste tipo. 

A 27 de março Soult chegava às portas do Porto, iniciando o assalto final à cidade na madrugada do dia 29 que, apesar da resistência, foi conseguido. A 12 de maio o Exército Anglo-Luso, liderado pelo Marechal Wellesley atacou a cidade e Soult retira para Amarante e daí para a Galiza. 

“A 27 de março, Soult chegava às portas do Porto, iniciando o assalto à cidade no dia 29, que, apesar da resistência foi conseguido. A 12 de maio, o Exército Anglo-luso, liderado pelo Marechal Wellesley, atacou a cidade e Soult retira para Amarante e daí para a Galiza”

Napoleão Ribeiro

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Das 104 mortes registadas no atual território do concelho de Santo Tirso verifica-se que os combatentes das quatro freguesias a norte do Ave, nomeadamente Areias, Lama, Palmeira e Sequeirô, à data pertencentes ao concelho do Couto de Landim, foram destacados para defender a cidade de Braga e sua envolvente, acabando a maior parte por tombar, provavelmente, na Batalha de Carvalho D’ Este. Nos livros de óbitos paroquiais são dados como desaparecidos na mesma batalha. No entanto, no livro da Paróquia da Palmeira é referido que um dos que faleceu, Miguel Teixeira, “a 15 de março de 1809 foi avisado para ir para o castelo de Lindoso, e já não podendo ir sabe-se que se uniu à Ordenança das Sete Fontes, acima de Braga e teve a infelicidade de estando assentado de vir uma bala e logo ficou quase morto. Vindo para o Hospital de Braga morreu pelo caminho”.

Pelos mesmos locais envolventes à sede da Arquidiocese terão andado os eventuais combatentes de São Miguel das Aves e Santo André de Sobrado, visto que estariam integrados nas companhias de ordenanças das Terras de Vermoim. Já as ordenanças dos concelhos, coutos, honras e termos a sul do Ave e do Vizela foram destacados para defender as pontes destes dois rios. Do concelho de Refojos, dois combatentes tombaram no Facho de São Tomé de Negrelos – um lugar usado para a sinalética militar – e outro na Varziela, em Santo Tirso. O único combatente do Couto de Santo Tirso que morreu, tombou em local desconhecido a 26 de março. Deduz-se que os desta freguesia estiveram na defesa da ponte da Lagoncinha ou em refregas posteriores à passagem do Corpo Expedicionário francês para sul do Ave e do Vizela. Além disso, conforme referido, dias antes, a 18 de março, foram executados sumariamente dois militares, um dos quais, muito possivelmente, oficial. Os combatentes dos Coutos de Roriz, da Honra de Negrelos e do Termo de Guimarães tombaram a 25 e a 26 de março na Ponte de Negrelos ou em lugares onde chegaram ainda feridos. Na igreja de São Salvador do Campo sepultaram-se ainda trinta corpos de desconhecidos e no templo de São Martinho do Campo quinze. Desconhece-se se se tratavam de combatentes portugueses ou franceses.

Enterrar e Calar” da série “Os Desastres da Guerra” de Francisco Goya (1746-1828)

Guerra Peninsular – Concelho de Santo Tirso – Mortos

COUTO DE RORIZ – Roriz: António, solteiro, filho de José Alves e Maria Francisca, do lugar de Cartemil; Francisco Coelho Campos, casado com Quitéria de Ascensão, do lugar do Outeiro. Tombaram os dois na Ponte de Negrelos. Francisco, por alcunha o “Sete Cravos”, casado com Águeda da Silva, do lugar de Bustelo, freguesia de São Pedro de Fins de Ferreira; José, solteiro, filho de Manuel Ferreira e de Custódia Maria, do lugar do Denasco (?). Tombaram os dois no lugar da Costa. José da Costa, casado com Maria Rosa, do lugar da Portela, tombou no Giestal da Fonte de Virais. Todos faleceram a 26 de março de 1809.

São Martinho do Campo: António Alves casado com Antónia Maria, do lugar do Monte; António Ferreira, casado com Joana Martins, do lugar de Paderne; António, solteiro, criado do Abade; Constantino, solteiro, também criado do Abade; Domingos Francisco, viúvo, do lugar da Ponte de Negrelos; Francisco Pereira, casado com Maria Martins, do lugar de Ruibães; Joaquim da Silva (?), filho de Maria Teresa, viúva de Custódio Machado, do lugar da Torre; Joaquim Ferreira, casado com Joana Martins, do lugar do Carvalhal; José da Cunha, casado com Custódia Machado, do lugar da Borra; José Francisco de Figueiredo, casado com Angélica Ferreira, do lugar da Ponte de Negrelos; Manuel Ferreira, casado com Josefa Maria, do lugar do Outeiro de Jinso; Pedro da Cunha, viúvo, do lugar da Escorregadoura. A estes assomam-se mais quinze homens desconhecidos. Todos tombaram em São Martinho do Campo a 25 de março de 1809.

HONRA DE NEGRELOS – São Salvador do Campo: Francisco Pereira, casado com Maria Pereira, de São Martinho do Campo. Morreu em São Salvador do Campo; Francisco, solteiro, filho de António Ribeiro e de Maria da Costa, do lugar do Paço. Morreu na Ponte de Negrelos. A estes assomam-se mais trinta pessoas desconhecidas. Todos morreram na Ponte de Negrelos e arredores a 25 de março de 1809.

São Mamede de Negrelos: António José Ferreira Meirinho casado, do lugar da Capela; Alexandre Ferreira, casado, do lugar de Valverde; António (?), solteiro, do lugar de Campanhã; Francisco Martins, viúvo, do lugar de Cimo de Vila; João Martins Honesto(?), casado, do lugar de Portelas; Joaquim Ribeiro Peixoto, casado, do lugar da Cortinha; Joaquim, solteiro, filho de José Álvares, do lugar da Guarda; José Álvares, do lugar da Guarda; José Álvares de Gomes, viúvo, do lugar da Várzea; José, solteiro, filho de Manuel Dias, do lugar da Quinta; Manuel Dias, casado, do lugar da Quinta; Manuel Ferreira Crespo(?), viúvo, do lugar de Bacelo; e Teles, solteiro, do lugar da Quinta da Lage.

EXECUÇÕES SUMÁRIAS: COUTO DE SANTO TIRSO – D. João Correia, da cidade do Porto; Manuel da Costa Ferreira, da cidade de Chaves. Os dois foram presos e executados a 18 de março de 1809 pela ordenança portuguesa.

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