[Crónica] Consciência Ambiental

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

Todo es mentira, yo me digo
Todo es mentira ¿Por qué será?
Todo es mentira en este mundo
Todo es mentira la verdad

                                                           In “Mentira” de Mano Chao.

Tem corrido a notícia, publicada no passado final mês de novembro, que relata a situação do maior iceberg do mundo, o A23a. Encalhado no Mar de Weddell desde 1986, desencalhou e dirige-se agora para a Corrente Circumpolar Antártica. A diluição da sua enorme massa de gelo, de 4000km quadrados, nos oceanos do sul do planeta, é mais um sinal alarmante daquilo que pode acontecer nos próximos dois ou três séculos. Estas notícias relembram os dizeres de um radialista brasileiro, gravados na música “Mentira” de Mano Chao:

 – É sempre mais fácil empurrar com a barriga e deixar o abacaxi para os netos, mas enquanto o mundo continua parolando, o termômetro e a água, vão subindo…

Neste pequeno tema, o músico aborda os negacionismos da iminência do aquecimento global, onde a verdade passa a mentira e a mentira passa a verdade. Pior do que isto, e conforme acontece com outros assuntos macrossociais, é o facto de grande parte da população conhecer o problema do Aquecimento Global e, mesmo assim, ignorá-lo.  O ímpeto coletivo encaminha-nos para um só lado, fazendo-nos esquecer a racionalidade. Não se julgue também que, em 1998, Mano Chao vaticinava já a demanda da atual onda negacionista da extrema-direita e do anarcocapitalismo. Embora sejam desse tempo, os argumentos saídos desses setores ideológicos não eram tão divulgados e conhecidos como hoje. Mano Chao referia-se, sobretudo, à ignorância sistemática do problema das administrações de diferentes países, ideologias e crenças.  Porém, a letra alude, igualmente, aos nossos comportamentos rotineiros de cidadãos poluidores conscientemente informados.   

Se, por um lado, muitas das famílias do nosso país não possuem consciência ecológica, por outro, o Estado também não tem acompanhado o desenvolvimento das ações para o ambiente. Por muito que já se tenha feito, em Portugal, tal como noutros países, as questões ambientais, tanto no foro da cidadania como da administração autárquica, ainda não foram devidamente trabalhadas. A possibilidade de escolas ou associações de cariz local poderem dar a conhecer pormenores dos ecossistemas do meio envolvente, seria uma mais-valia para todos.  

Nas instituições de ensino, a burocracia e as regras extremas da responsabilização do professorado, impedem a saída de alunos para o terreno, mesmo os do pré-escolar e ensino primário, impedindo um contacto básico e direto com a natureza, como por exemplo, a identificação das diferentes espécies dos bichos e plantas que nos rodeiam. Se prestarmos atenção, verificamos que, muitas vezes, no ensino pré-escolar, por comodidade burocrática, é mais confortável deixar os meninos a ver um filme do que sair para o exterior e compreender o valor dos animais e folhas da manta morta; a importância das presas de água para os anfíbios; ou a mais-valia das carvalheiras centenárias para os escaravelhos, entre muitas outras coisas.  Recuando duas décadas, verificamos que estes animais e plantas, ao contrário de hoje, eram observados no quotidiano das brincadeiras da população infantil e que a teoria lecionada na escola ajudava a compreendê-los no seu todo.  Hoje, é diferente. Há cada vez mais crianças que crescem no conforto das suas casas, sem contacto com o exterior, num mundo regido pela internet e pela televisão. Mesmo os miúdos que vivem em contextos rurais, neste aspeto, não se diferenciam das que crescem em meios urbanos. Infelizmente, somos um país que ainda não atingiu um estádio em que haja a necessidade de possuir clubes de natureza locais e associações do ambiente.

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