[Crónica] Famílias primeiro?

CRÓNICAS/OPINIÃO Hugo Rajão

O governo apresentou o pacote de combate à inflação. O título é sugestivo – “Famílias primeiro”. 2400 milhões de euros. 125 euros por pessoa, sem condicionantes, a todos que aufiram até 2700 euros mensais (brutos). Aumento do valor das pensões, com bónus de meia pensão em outubro. Parece um governo de esquerda, não parece?

Depressa as medidas foram desmistificadas. 2400 milhões é menos de metade do que Estado arrecadou a mais por via da inflação. As restantes medidas distributivas ficam aquém do que as pessoas perderão, em rendimento, em virtude da mesma. Em particular, nas pensões tudo se tratou de um truque.

Quando comparado com os vizinhos europeus (nem todos socialistas), constata-se que não só o executivo de Costa demorou mais a reagir, como se revelou menos generoso nas medidas. Nos lucros excessivos nem se atreveu a tocar, colocando o PS, nesta matéria, à direita do FMI e da Comissão Europeia (pasmem-se), que recomendaram a sua taxação.

Infelizmente o “Famílias primeiro” é sintomático daquilo que o PS se tornou. Um partido que vive em dissonância identitária. Por um lado, tem políticas que poderiam muito bem ser adotadas por um governo de direita. Por outro, faz acompanhar o seu anúncio de uma coreografia de esquerda. Com uma linguagem “distributivista” anuncia assim a, porventura, maior perda de rendimento.

“Quando comparado com os vizinhos europeus (nem todos socialistas), constata-se que não só o executivo de Costa demorou mais a reagir, como se revelou menos generoso nas medidas”

É como se o PS já não consiga ser de esquerda, mas ao mesmo tempo não aguenta que o percebamos (ou que ele próprio o perceba). Um partido que não quer desonrar a sua tradição socialista/social-democrata histórica, mas não resiste em fazê-lo. É bom lembrar que a geringonça caiu por um impasse criado em torno do ponto nevrálgico do socialismo democrático/social-democracia – o trabalho.

O governo até pode dizer que está a distribuir, é verdade, mas não o faz em moldes de esquerda. As medidas são manifestamente insuficientes e revelam falta de arrojo e coragem. Distribuir à míngua, abaixo do dano que se procura combater, e sem mexer nos interesses de quem mais lucra com a situação. Não se trata de um pacote socialista, em vista de um modelo de justiça social, mas de um meramente caritativo, assente no valor do “melhor do que nada”. Noutras palavras, no valor do “melhor do que a direita faria”.

No entanto, ser um bocadinho menos de direita do que a direita não se afigura um projeto político muito sofisticado, e muito menos inspirador. Dificuldade terá a Iniciativa Liberal para criticar este pacote sem jogar a habitual cartada do “problema do socialismo”.

Como vimos, o problema não é do socialismo, é da ausência dele.

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