[Reportagem] Um “Recém-Nascido” no grande ecrã

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Curta metragem de Dinis Leal Machado e Sofia Ferreira explora as peripécias do primeiro mês de vida do filho, Xavier, e dos desafios inerentes à chegada de um novo ser ao seio familiar.

Todos os novos pais sentem o impulso de guardar para a posteridade qualquer instante, momento ou novidade da curta vida do seu recém-nascido. O que outrora ficava registado em extensos álbuns fotográficos ou cassetes VHS perdidas nos armários, passou com o advento digital para as redes e discos rígidos. Mas nem todos os novos pais e mães, com esse impulso latente de captar tudo, têm a linguagem do cinema ao seu alcance.

Dinis Leal Machado e Sofia Ferreira, sim. A esse impulso pós-nascimento do primeiro filho, Xavier, que por si só levanta questões tão existenciais como “e agora?”, responderam simplesmente: “vamos fazer um filme”.

Em conversa com o Entre Margens, o jovem casal avense explica que a ideia de fazer o filme parte, não só desse impulso de guardar os momentos, como de também de instrumento através do qual foram aprendendo a lidar com as peripécias que diariamente surgem no que diz respeito ao cuidado de um recém-nascido.

“O facto de o Xavier ser tranquilo permitiu-nos ter esta disponibilidade e disposição mental para pensar e estruturar um projeto destes”, explica Sofia Ferreira que aqui assume pela primeira vez o crédito de co-realizadora e utiliza a sua formação na área das ciências da educação para imbuir o filme com uma vertente mais robusta em termos do que é retratado.

A curta de 20 minutos não trata a maternidade/paternidade como um grande drama, vai em busca das dificuldades e desafios mais prosaicos, com um tom leve, curiosamente cómico e relacionável.

“O filme é sobre a nossa adaptação enquanto pais à presença do Xavier”, aponta Dinis. “Ele é claramente o elemento central, porque gira tudo em seu torno, todas as nossas dúvidas e inquietações do momento vão evoluindo para considerações mais existenciais sobre a ideia de que como é que se cria uma família”.

A noção de que aquele é um ser humano que precisa de cuidados e atenção é “tremendamente impactante”, mas permite olhar para o mundo com uma nova perspetiva, a partir das suas próprias experiências. E filmar, ao longo do seu primeiro mês de vida, traduziu essa visão de forma muito concreta.

“Às vezes, basta ficar a vê-lo a existir. Ele e as suas descobertas”, confessa Sofia. Uma ideia complementada pelo companheiro que explica o desafio de filmar alguém cuja existência é ingenuidade no estado mais puro.

“Uma das coisas mais sedutoras de filmar um recém-nascido é o facto de ele ser verdadeiramente das poucas pessoas que não tem consciência de uma câmara”, começa por dizer o autor de filmes como ‘Snooze’, ‘Cringe’ e ‘A Vida Dura Muito Pouco’. “Para ele não há distinção, enquanto, por exemplo uma criança de seis anos já tem essa consciência. Nesse sentido é uma dádiva. Alguém que não tendo consciência, não tem outra alternativa que não ser ele próprio”.

“Recém-Nascido” estreou no final do mês de novembro no Festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra incorporado na “Seleção Caminhos”, mas apesar de uma carreira onde as suas curtas foram exibidas em ambiente de festival, a intenção deste novo filme não era essa à partida. Acabou por ser o processo a ditar que, talvez, pudesse haver interesse em mostrar num certame.

“Este filme tinha tudo para dar errado”, admite Dinis. “Aliás, deve haver imensos casos de pessoas que, como eu, estando ligadas ao audiovisual, tentam fazer coisas parecidas, mas há imensas variáveis que acabam por dar errado. Neste caso, começamos a fazer o filme, montamos e apercebemo-nos que poderia ter alguma chance porque tem um centro comum que pode ser interessante para as outras pessoas. É uma experiência relacionável”.

Depois de estrear em Coimbra, o primeiro mês de vida de Xavier passou pelo Ymotion – festival de cinema jovem de Famalicão e aguarda respostas de outros eventos para ser mostrado no grande ecrã. Um “Recém-Nascido” projetado em grandes dimensões.

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