[Destaque] A Casa do Sol é a definição de esperança para os jovens da ASAS

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A Casa do Sol, em Vila das Aves, é a residência da ASAS que acolhe jovens em risco entre os 12 e os 18 anos com o objetivo de os ajudar a lidar com o passado para melhor poderem enfrentar o futuro. Aos 18 anos, Sofia Ferreira, vive na residência desde os treze e quer continuar na “casa da esperança” pelo menos até terminar o ensino superior.

São as pequenas conquistas que fazem a Casa do Sol “vibrar”. Basta uma mensagem. O telefone de Ângela Ferreira, diretora técnica da residência que acolhe jovens entre os 12 e os 18 anos localizada em Vila das Aves há cerca de uma década, deu sinal e o sorriso que se seguiu não enganou. Um dos residentes tinha ido numa experiência de emprego e o feedback fora positivo. Um motivo de orgulho para a responsável da casa sob gestão da ASAS.

Desde 2009 que o antigo edifício dos correios, em frente ao portão da fábrica do Rio Vizela, na baixa avense, transforma “efetivamente” vidas. Nestes quase treze anos de atividade, após cedência do edifício e do terreno contíguo por comodato pela junta de freguesia de Vila das Aves, já passaram por aquelas quatro paredes mais de cinquenta jovens.

“Mais do que inserida em contexto da ASAS, a Casa do Sol está inserida comunidade”, aponta Ângela Ferreira, em conversa com o Entre Margens no espaço exterior da casa, surgindo como resposta complementar no âmbito do número de pedidos e da mudança no perfil dos jovens que as autoridades competentes retiram do seio familiar.

“A nossa filosofia é mostrar-lhes o mundo para que eles se consigam encontrar a eles mesmos”

Ângela Ferreira, diretora-técnica da Casa do Sol

“O acolhimento é cada vez mais tardio porque é feita uma intervenção por equipas especializadas como os CAFAP (Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental). A própria lei dá primazia ao trabalho dentro dos núcleos familiares, precisamente para evitar que as crianças sejam retiradas. Isto faz com que as crianças venham mais tarde”, explica Tânia Sampaio, assistente social, que desempenha funções na Casa do Sol há dois anos.

É, portanto, uma resposta a uma necessidade que se foi evidenciando com o passar do tempo. Com as residências de acolhimento temporário “Renascer” (0-6) e “Raízes” (6-12) ficara uma faixa etária por preencher, em idades que requerem preocupações e um trabalho específico a pensar no futuro e no mundo que os rodeia.

E não é por acaso que a Casa do Sol está situada em Vila das Aves, bem localizada, próxima do tecido empresarial e de fácil acesso às principais vias de comunicação: seja a estação ferroviária, seja a EN-105 de ligação a Guimarães ou Porto.

“Não somos coitadinhos”

O acolhimento cada vez mais tardio dos jovens em situações de risco, muitas das vezes faz com que as estruturas residenciais como a Casa do Sol recebam “jovens já na adolescência”, onde as fragilidades sentidas na infância são mais evidentes e, porventura, extremadas. À residência de Vila das Aves, em média, os jovens chegam com quinze anos, sendo que as maiores dificuldades apresentadas estão maioritariamente relacionadas com duas características: a falta de vínculos parentais e problemas de saúde mental.

Sofia Ferreira tem hoje 18 anos e voluntariou-se a contar a sua história ao Entre Margens porque quer desmistificar os preconceitos e as ideias formadas da sociedade sobre jovens institucionalizados. Preconceito número um: “não somos culpados, somos penas vítimas”.

A agora jovem adulta chegou à Casa do Sol com apenas 13 anos de idade. Filha de pais separados, vivia com o pai desde os oito e sofria de violência doméstica por parte da madrasta. Até que um dia disse “basta” e fez queixa. Dirigiu-se à professora de história que tinha ligação à CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens). No mesmo dia foi retirada de casa do pai.

“Acho que fui um bocado impulsiva, mas se não tivesse sido impulsiva, não o teria feito”, confessa, admitindo que estava “cheia de medo” do estigma que existe sobre as instituições. “De que são horríveis, de que somos mal tratados, que não querem saber de nós. Quando cheguei aqui, perguntei-me, mas isto é uma instituição? Era apenas uma casa. Não é um hospital, nem uma prisão. Foi um paraíso na terra.”

“Quando sabem que vivo numa instituição, deixo de ser a Sofia e passo a ser a menina da ASAS, a coitadinha”

Sofia Ferreira, residente da Casa do Sol

Um paraíso, claro, que nem sempre o foi e Sofia tem noção de todo percurso pelo qual passou nos últimos cinco anos. “Precisava mesmo de ajuda”, sublinha. “Não me conseguia relacionar, comportava-me mesmo como uma pessoa que tinha passado por um trauma, comunicava muito por gritos caso me dissessem algo que não gostava”. Hoje, apesar de se considerar tímida e receosa de ir a locais desconhecidos, diz-se “uma conversadora tímida” e para se perceber a evolução, coloca os termos de forma simples: “há cinco anos, não estaria aqui a ter esta conversa”.

Uma autoconsciência que é resultado do trabalho de transformação e reconstrução pessoal pelo qual estes jovens passam numa instituição como a ASAS e numa residência como a Casa do Sol. Transformação essa que “tem que partir de dentro”, explica Ângela Ferreira. “Nós somos apenas agentes externos e facilitadores. A Sofia consegue falar assim pela maturidade que tem e pelos cinco anos de intervenção. É algo que demora o seu tempo, porque quanto mais lacunas houver, quanto mais magoados estão, quanto mais revolta houver, mais difícil”.

Preconceito número dois: “não somos coitadinhos”. Apesar de toda a envolvência da comunidade, a vários níveis, com o dia a dia da Casa do Sol, persistem os chavões e as ideias erradas sobre como é a vida de um jovem institucionalizado. “A ideia do coitadinho”, aponta Sofia, leva as pessoas a fazer perguntas sem qualquer sentido. “Chegam a perguntar se nos dão comida em casa, o que é um absurdo”.

O mais notório e comum, no entanto, é a perda de identidade a partir do momento em que ficam a saber que vivem numa instituição. “Deixo de ser a Sofia e passo a ser a menina da ASAS, a coitadinha”.

Sofia Ferreira quer deixar esses rótulos de lado e não tem receio de o afirmar em voz alta e de modo convincente. Está a poucas semanas de terminar o ensino secundário e tem os olhos postos no ensino superior. Gosta de escrever e como tal quer entrar na licenciatura em estudos portugueses.

[Ler reportagem completa na edição 694 do Entre Margens]

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