[Opinião] Dois anos de Luís: quando os políticos decidem governar

Ana Maria Lages CRÓNICAS/OPINIÃO

Dois anos depois, a AD tem o mérito de ter trazido uma ideia simples e, em política, rara: governar é escolher, insistir e executar. Num tempo de ruído permanente, Luís Montenegro procurou dar ao país uma linha de continuidade, evitando que a instabilidade se tornasse método.

A própria leitura feita pelo Governo é clara: a estabilidade política pode existir mesmo sem maioria absoluta, desde que haja diálogo, disciplina e sentido de direção.

O balanço económico é, sem surpresa, o ponto mais forte destes dois anos: o Governo afirma ter registado dois excedentes orçamentais consecutivos e uma redução da dívida pública para menos de 90% do PIB, algo que não acontecia há 16 anos.
O desemprego manteve-se em níveis muito baixos: o INE fixou a taxa em 5,6% em janeiro de 2026, o valor mais baixo desde 2002. E a OCDE projeta que os salários nominais continuem a crescer acima da inflação em 2026 e 2027, sinal de uma economia que não vive apenas de números bonitos no papel, mas de rendimento real a chegar às famílias.
Também na fiscalidade houve uma mudança percetível. Em dois anos, o Executivo diz ter reduzido o IRS quatro vezes, libertando mais de dois mil milhões de euros, ao mesmo tempo que avançou com a descida do IRC para estimular o investimento e a criação de emprego. Em 2026, o salário mínimo sobe para 920 euros e as pensões mais baixas aumentam 2,8%, acima da inflação prevista, enquanto o Complemento Solidário para Idosos reforça a proteção dos mais frágeis.
Não é apenas política contabilística: é uma opção política pela valorização do trabalho e do rendimento disponível.
Na habitação, talvez o dossiê mais sensível da legislatura, o Governo fez o que tantos prometem e poucos arriscam: mexeu na máquina.
O pacote fiscal aprovado no Parlamento reduziu o IVA na construção e reabilitação para 6% em vários casos, reforçou as deduções para inquilinos e criou incentivos fiscais para arrendamento a preços moderados. Ao mesmo tempo, foi anunciado um modelo mais simples de licenciamento e de urbanização, com menos burocracia e mais previsibilidade. Num país onde o problema da casa se arrastou durante anos, esta é uma tentativa séria de aumentar oferta e destravar investimento.
Há ainda um sinal político que vale tanto como muitas medidas: o reforço do Estado social sem dramatismo ideológico. O Governo destaca 39 acordos com sindicatos, 29 carreiras revistas e mais de 350 mil trabalhadores abrangidos, incluindo professores, forças de segurança e profissionais de saúde.
Pode discutir-se o ritmo, pode discutir-se a suficiência, mas não se pode ignorar a dimensão do esforço.

Num país tantas vezes preso à nostalgia da promessa, ver reformas, acordos e execução num mesmo ciclo governativo é, por si só, um sinal de maturidade.
Nos próximos anos, a grande prova continuará a ser a mesma: transformar estabilidade em confiança e confiança em crescimento.
Mas seria injusto olhar para estes dois anos como se fossem apenas um intervalo entre crises.
O que a AD conseguiu foi devolver ao país uma ideia de governo com ambição prática, contas em ordem e vontade de resolver problemas concretos.
Em política, isso já não é pouco.
E, olhando para o estado da economia, para a disciplina orçamental, para o investimento na habitação e para a valorização dos rendimentos, há razões sólidas para dizer que Portugal termina estes dois anos melhor do que os começou.

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