[Opinião] Este país não é para crianças

CRÓNICAS/OPINIÃO João Ferreira

A direita enche a boca com a palavra “família”, mas no momento de votar acaba sempre por defender a lógica do salve-se quem puder, como se educar, cuidar, alimentar e fazer crescer uma criança fosse um assunto exclusivamente privado, um problema a resolver entre quatro paredes, e não uma responsabilidade coletiva, partilhada por toda a sociedade.

Esta semana, mais uma vez, discutiu-se o alargamento da rede pública de creches, proposta repetida do PCP, novamente chumbada pelo PSD, pelo CDS, pelo PS, pela IL, pelo Chega. Tal chumbo não pode deixar de motivar uma sensação de revolta, num dos países mais envelhecidos da Europa, em que, paradoxalmente, metade das crianças até aos três anos, mais de noventa mil, não tem vaga na creche, e milhares de famílias são forçadas a pagar pequenas fortunas para alguém cuidar dos filhos, ou então alguém fica em casa, quase sempre a mulher, porque a fava cai sempre do mesmo lado. Nesse mesmo país em que há casais que desistem de ter filhos por causa dos encargos associados, tanto mais quando observam que a pobreza se instala com maior frequência nas famílias com filhos, sendo agravada nas monoparentais, onde um pai/mãe, sozinho, faz o trabalho de dois.

A creche é um direito de todas as crianças e só uma rede pública e universal pode garantir a todas, ricas e pobres, portuguesas e imigrantes, com deficiência ou sem ela, uma vaga e uma resposta educativa de qualidade, porque é preciso evoluir da conceção da creche como depósito de crianças enquanto os pais trabalham, para uma resposta educativa centrada na criança, capaz de garantir, desde a mais tenra idade, o desenvolvimento integral, o respeito pela individualidade, a promoção das competências pessoais e sociais, independentemente da condição económica.

Hoje em dia, é consensual entre psicólogos, psiquiatras e educadores, que os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento emocional e cerebral, e os estudos mais recentes dizem-nos que a partilha de vivências com outras crianças, com educadores qualificados, está associada a melhores habilidades cognitivas, prepara para o sucesso escolar, reduz dificuldades emocionais, oferece oportunidades que muitas casas não podem dar, por falta de tempo ou de recursos. Isto é, uma creche de qualidade promove o desenvolvimento cognitivo e emocional, melhora a aprendizagem e o bem-estar, gera impactos duráveis no desempenho académico e na vida adulta, combate a pobreza e a exclusão social, facilita a vida dos pais trabalhadores, integra comunidades imigrantes, e ainda permite que as mulheres com filhos pequenos trabalhem, se assim desejarem, sem sacrificar rendimentos e carreiras.

A resposta, portanto, não pode ser fragmentada, dependente de interesses privados ou da capacidade económica de cada um, a resposta tem de ser pública, universal, de qualidade, uma rede que cubra o país, que não deixe ninguém para trás, que assuma que investir na infância é investir no futuro coletivo. Porque em vez de se tentar gerir compromissos intergeracionais no interior das famílias, o que historicamente resulta em desfechos desiguais, atentas as desigualdades sociais inerentes, devemos partilhar esses riscos uns com os outros.

Uma sociedade que se quer viva, que se quer justa, que se quer capaz de se renovar, não pode continuar a empurrar para as famílias o que é responsabilidade de todos, não pode continuar a falar de futuro enquanto nega às crianças as condições para o construir. É desde logo aí, da infância, que se decide, afinal, o país que seremos.

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