[Crónica] Memórias da fauna piscícola de Ambos os Aves (X)

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

SÁVEL (Alosa alosa)

Caraterísticas: No nosso país, o sável é considerado como Espécie em Perigo (EP). O comprimento máximo deste peixe é de 75cm e, em regra, as fêmeas são os exemplares de maior dimensão. Trata-se de um anádromo, dado que muitos dos seus exemplares (nem todos) sobem os rios onde nasceram para se reproduzir. Este comportamento ocorre no início de fevereiro e prolonga-se até ao verão. A espécie, apesar de escassa, ainda está presente na maior parte das bacias hidrográficas do país, sendo, atualmente, o rio Ave um dos poucos cursos de água doce onde já não se observa.   

A reprodução do sável ocorre nas zonas intermédias e de cabeceira dos cursos fluviais, em profundidades reduzidas, com menos de um metro e leitos de cascalho. Após o acasalamento, a maioria dos indivíduos não aguenta o desgaste e acaba por morrer, dado que podem perder 50% do peso corporal.

Os novos espécimes, nas fases larvar e juvenil, passadas em água doce, alimentam-se de larvas de insetos e crustáceos. Antes de completarem o primeiro ano de vida no rio, migram para o mar, onde vão habitar na Plataforma Continental do Atlântico, onde se alimentam de crustáceos de plâncton e pequenos peixes[1].

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Legenda: Sável, Alosa alosa, por Krüger – Biblioteca Nacional de França. Domínio público. Retirado de  https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10375377

Tal como o salmão e a lampreia, referidos em artigos anteriores, no século XIX o sável já era escasso no rio Ave. Contudo, atesta-se a sua presença neste curso fluvial, por exemplo, nas atas de vereação de Vila do Conde de 30 de março de 1624[2] e 19 de abril de 1636[3]. Nelas, registam-se os sorteios de lanços de pesca ao sável realizados pela Câmara, destinados aos pescadores da Azurara e da vila.

Porém, as numerosas estruturas pesqueiras montadas nos caneiros das azenhas, viria a diminuir drasticamente a espécie. Esse grande número de azenhas, no passado, sustentava as necessidades alimentares das populações do Vale do Ave e o seu elevado número de açudes, ainda hoje, ajuda a estabilizar a regularidade do caudal do rio e a desviar águas para os sistemas de rega. Algumas dessas azenhas foram construídas na Idade Média, como é o caso da Azenha da Maganha, em Santiago de Bougado, edificada no tempo de D. Dinis[4]. Estes açudes, certamente que eram já dotados de pequenas estruturas que albergavam nassas e, do século XVIII em diante, foram incorporando também a instalação de armadilhas automáticas, similares às que o pároco de São Martinho de Bougado referiu nas Memórias Paroquiais de 1758, inventadas ou desenvolvidas pelo Pe. Brás, da freguesia de Fradelos[5]. Esta inovação setecentista, basicamente, apanhava de forma insaciável, todas as espécies piscícolas do rio. Deduzimos que, como os açudes eram propriedade privada e a pesca no Ave praticamente não era coutada, a voracidade destes engenhos ditou um grande declínio de todos os anádromos do rio. Aliás, conforme referimos em artigo anterior, o Inquérito Municipal de Guimarães, datado de 1842, dá conta disso, quando o pároco de Ronfe refere que “desde que se construíram várias pesqueiras em Santo Tirso, Lagoncinha, e Trofa não se viram aqui mais[6] peixes anádromos. Apesar de, ao longo dos séculos, haver inúmera regulamentação da pesca nos rios portugueses, produzida de forma a equilibrar a gestão ecológica das espécies, as evidências mostram-nos que nunca se traduziu no rio Ave e, muito menos no licenciamento e fiscalização desses engenhos automáticos. 

(continua)


[1] Informações retiradas de: MAGALHÃES MF, AMARAL SD, SOUSA M, ALEXANDRE CM, ALMEIDA PR, ALVES MJ, CORTES R, FARROBO A, FILIPE AF, FRANCO A, JESUS J, OLIVEIRA JM, PEREIRA J, PIRES D, REIS M, RIBEIRO F, ROBALO JI, SÁ F, SANTOS CS, TEIXEIRA A, DOMINGOS I. – “Livro Vermelho dos Peixes Dulciaquícolas e Diádromos de Portugal Continental”. Lisboa: FCiências.ID & ICNF, I.P., 2023. Pp. 102-103.

[2] Arquivo Municipal de Vila do Conde: código de referência PT/CMVC-AM/CMVC/7/1624/020

[3] Arquivo Municipal de Vila do Conde: código de referência PT/CMVC-AM/CMVC/7/1636/027

[4] Segundo uma carta de aforamento concedida por D. Dinis a Aldara Martins (ca. 1279-1325) para aí edificar uma azenha, junto ao rio Ave, no lugar da Pena de Maganha, nessa freguesia.  [ANTT], Chancelaria de D. Dinis, liv. 2, f. 90v. Código referência PT/TT/CHR/C/001/0002/09001.

[5] [ANTT], Memórias Paroquiais, vol. 7, nº 53, pp. 1087 a 1098. Código referência PT/TT/MPRQ/7/53.

[6] S. Tiago de Ronfe Guimarães — Inquérito paroquial de 1842. Revista de Guimarães, n.º 108. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, 1998. Pp. 493-503.

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