[Editorial] Os “autogolos” que não pudemos evitar

CRÓNICAS/OPINIÃO Diretor

1Os desenvolvimentos recentes das sequelas da inominável gestão da SAD do Clube Desportivo das Aves, com as sanções desportivas da FIFA a atingir o “satélite” CD Aves 1930, são tema de destaque nesta edição do Entre Margens. Por um lado interessa debater que problemas se podem antever na gestão do clube em face de tais sanções. Por outro lado, avizinhando-se o ato eleitoral, será necessário que se encontrem soluções para dar continuidade a uma história já longa e notável, contando com a vitalidade e a determinação da “gente moça, desportistas” cantados no hino do clube.

A constituição da SAD foi uma aventura que correu muito mal. A cedência de larga maioria do seu capital a pseudoempresários aventureiros que traziam na mão a possibilidade de, no curto prazo, salvar a sociedade desportiva anterior (que já apresentava sinais de agonia), saldou-se num autogolo catastrófico. Mas ninguém negará que, por algum tempo pelo menos, chegou a ter fé na solução encontrada e a esperança de que da China vinham brisas favoráveis sopradas por um brasileiro bem-falante. Ingénuos, fomos todos. Depois veio o vírus pandémico que arrumou com a esperança e a vida do doente crónico de asfixia financeira.

O esforço da direção liderada por António Freitas para terminar de forma honrosa aquela última época entre os grandes da bola não teve, na prática, o reconhecimento das altas instâncias do futebol nacional. É claro que nunca poderemos saber o que teria acontecido se se tivesse sido outra a atitude da direção perante a SAD e perante a Liga. Ou se tivesse sido outra a escolha dos associados nas eleições efetuadas em plena pandemia. Não era expetável, então, que a crise atingisse a dimensão que teve e ninguém estava preparado para enfrentá-la.

O que temos agora é o resultado de decisões de gestão que não podemos alterar. O jogo tem de continuar e tem de fazer-se com as condições existentes. Ninguém arrisca prever as consequências, para o clube, da insolvência da SAD (o clube é detentor de 10% do capital da SAD mas a responsabilidade na gestão foi residual). A abordagem destas questões, bem como dos problemas relacionados com as sanções desportivas de que se fala exige esforços congregados.

É necessário e urgente sanar diferendos que apenas prejudicam a coletividade e encontrar um consenso para uma união na gestão que garanta para o clube o melhor futuro possível.

“É necessário e urgente sanar diferendos que apenas prejudicam a coletividade e encontrar consenso para uma união na gestão que garanta para o clube o melhor futuro possível”

Américo Luís Fernandes

2A gestão autárquica pode fazer-se, em determinados domínios, por concessão. É entregue a privados a exploração de um determinado serviço mediante compensação adequada ao município.  Habitualmente estão em causa questões que implicam avultados investimentos ou estruturas organizativas de certa dimensão. A lógica da concessão da gestão do estacionamento na sede do concelho parece ter começado assim: conceber, projetar, construir e gerir parques de estacionamento. Um concurso internacional foi o sinal de entrada em grande num domínio que só tinha paralelo em grandes cidades. O contrato acabou assinado, apesar de contestado por alguns dos concorrentes.

A mudança entretanto ocorrida na liderança da autarquia terá definido perspetivas menos ambiciosas que, ajudadas pela contenção que a pandemia produziu, sugeriam o resgate do contrato. O que se passou foi um resgate parcial, donde desapareceu a questão fulcral da conceção e construção de novos parques, foram retirados à concessão cerca de mil dos lugares de estacionamento existentes, foram renegociadas as contrapartidas financeiras e prorrogados os prazos.
 A autarquia terá o seu quinhão de receita garantido pelos aumentos de tarifário e pela eficácia do controle dos estacionamentos e da manutenção do estado dos parcómetros. Mas é pouco provável que aumente a receita e, ainda menos, que melhore a satisfação dos munícipes. Em gíria desportiva seria um autogolo da responsabilidade do capitão de equipa. É verdade que ele foi entretanto substituído. Mas a equipa era basicamente a mesma e fica a perder pontos no seu campeonato.

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