Quando tomou posse em 2016, poucos imaginavam que a Presidência de Marcelo Rebelo de Sousa seria, acima de tudo, uma experiência política tão diferente. Durante dez anos, Belém deixou de ser apenas o lugar do chefe de Estado distante para se tornar uma espécie de praça pública permanente, onde o Presidente comentava, reagia, abraçava e aparecia muitas vezes antes de qualquer outro responsável político.
Foi, talvez, o Presidente mais presente de que há memória.
Falou muito, viajou muito, dissolveu parlamentos, comentou crises e multiplicou gestos de proximidade. Em dez anos, realizou centenas de deslocações, incluindo cerca de 175 viagens internacionais a mais de 60 países, enquanto mantinha uma presença quase diária na vida política e mediática do país.
Esse estilo trouxe-lhe popularidade, sobretudo no primeiro mandato. Mas trouxe também críticas. Muitos acusaram Marcelo de falar demais para o cargo que ocupa. Outros viram nele um Presidente que confundia comentário com intervenção política. Houve episódios menos felizes, frases ditas de improviso, momentos em que a espontaneidade ultrapassou o protocolo, algo que, aliás, marcou frequentemente os seus dois mandatos.
Mas reduzir Marcelo a essas polémicas seria um erro de perspetiva.
A sua Presidência coincidiu com alguns dos momentos mais difíceis das últimas décadas: incêndios devastadores, pandemia, crises políticas sucessivas e dissoluções parlamentares. Em muitos desses momentos, foi precisamente a sua presença constante, quase omnipresente, que ajudou a transmitir uma sensação de proximidade e de estabilidade institucional.
Marcelo não foi um Presidente clássico. Foi, antes, um Presidente profundamente humano, com todas as virtudes e defeitos que isso implica. Um Presidente que preferiu o contacto ao silêncio, a improvisação ao cálculo, o abraço ao protocolo.
Essa opção teve custos. Houve desgaste, sobretudo no segundo mandato. A hiperatividade que antes encantava começou a cansar alguns observadores. E o Presidente comentador passou, por vezes, a ser visto como um Presidente excessivo.
Mesmo assim, há algo que dificilmente se poderá negar: durante dez anos, os portugueses sentiram que o Presidente estava ali. No meio da multidão, no meio da crise, no meio da conversa. Num país onde tantas vezes se acusa os políticos de distância e frieza, Marcelo escolheu exatamente o contrário. Aproximou-se tanto que, às vezes, talvez demais.
Talvez seja esse o paradoxo que define estes dez anos. Marcelo transformou a Presidência numa presença constante, às vezes excessiva, às vezes reconfortante, mas quase nunca indiferente. Num tempo político marcado por desconfiança e cansaço democrático, conseguiu manter uma ligação emocional com grande parte da sociedade portuguesa.
Quando Belém passar a ter outro rosto, é provável que o contraste seja inevitável. A Presidência poderá voltar a ser mais discreta, mais contida, mais silenciosa. Mas também ficará a memória de uma década em que o chefe de Estado estava sempre por perto, pronto para comentar, para aparecer ou simplesmente para ouvir.
E isso, goste-se mais ou menos do estilo, também fará parte da história política recente de Portugal.
Mas é provável que, quando esse silêncio chegar, muitos percebam algo curioso.
Ainda vamos ter saudades de Marcelo.
