Quando Mazgani subir ao palco do auditório do Centro Cultural de Vila das Aves, esta sexta-feira, dia 1 de maio, traz consigo uma longa bagagem de canções de estrada. Ao longo de quase duas décadas de carreira o músico de ascendência iraniana forjou uma imagem própria no contexto da música nacional, vincado num universo estético onde vai beber a nomes como Nick Drake, Leonard Cohen ou Nick Cave. A sua música sente-se na pele e no espírito. Não flutua. Agarra-se às entranhas e talvez por isso tenha cultivado um nicho de culto.
No seu mais recente trabalho, “Cidade de Cinema”, aventura-se não só por paisagens cinematográficas que já fazem parte do seu universo, mas sobretudo por uma nova forma de expressão, deixando o inglês e adotando o português como língua da sua expressividade artística.
Em entrevista ao Entre Margens, Mazgani fala sobre essa transformação e antecipa um concerto já esgotado no auditório avense.
Ouvir Mazgani em português é certamente uma experiência diferente do que ouvi-lo em inglês, ao fim de todos estes anos. Em que medida é que essa questão da língua mudou também a abordagem do processo criativo?
O processo criativo é idêntico. É um tipo sozinho em casa, com uma guitarra, a tentar rimar alhos e bugalhos. Isso já acontecia com os discos em inglês. Portanto, a coisa feita um bocadinho a preto e branco. Depois é apresentada aos músicos, que depois trazem a sua caligrafia, a sua assinatura, e introduzem as cores à canção. Quando a canção é apresentada, já leva a sua identidade, essa esperança, e depois os outros vão vincando as atmosferas com as soluções que trazem às canções.
Tem referido publicamente a ideia de “susto” ao assumir as canções em língua portuguesa. Esse “susto” é mais intelectual ou mais emocional?
Bom, a escolher seria intelectual, no sentido em que há uma resistência mental a sair do lugar de conforto. Sentia já a minha autoridade a escrever em inglês. Já tinha feito muitos discos assim. Não quis arriscar, mas depois a coisa deu-se, e felizmente acho que correu bem.
As referências que são sempre apontadas ao universo sónico têm uma raiz profunda e remetem para uma iconografia muito específica. Esta questão da língua permitiu colocá-los em confronto ou em conjugação com figuras do cancioneiro português? Se sim, quais é que assombram este trabalho?
Essa autoridade, digamos, essa experiência ou essa repetição de ir fazendo discos penso que depois permitiu fazer o disco em português sem grandes ruturas estéticas. O meu universo estético, nem que seja pelas grandes limitações técnicas que tenho, é quase sempre o mesmo. Portanto, foi só mudar de língua, o universo estético já estava lá. Depois foi talvez ler mais em português, ler mais os poetas, quer dizer, e sempre o fiz, sempre li os poetas portugueses, mas talvez com outra consciência, para roubar e fazer as minhas letras.
O universo Mazgani sempre teve uma componente cinematográfica bem vincada. As canções têm um ambiente imagético muito vincado. Neste “Cidade de Cinema”, esse aspeto estético esteve ainda mais presente ou o título refere-se a algo mais concreto?
Quando os acordes aparecem, as palavras aparecem, o som aparece, é também visto como um lugar, uma temperatura, uma cor. E nesse sentido, está-se a construir um filme. Da mesma maneira que quando se está a fazer um western, o personagem não pode estar com o Apple Watch (ou pode, mas já é um filme muito particular), os elementos que se vão adicionando ou misturando, quando se está a erigir uma canção, têm que ir adensando e vincando o universo que se está a criar. E nesse sentido, é muito parecido a fazer um filme. Uma série de estruturas, a que é preciso estar vigilante, e frequências de luz, aqui seriam frequências de som.
Tem rodado o álbum bastante pelo país. Como é que o público de Mazgani tem embarcado nesta nova viagem sónica? Para além dos fiéis há novos convertidos?
Bom, acho que para além dos fiéis, há novos convertidos. Vejo as pessoas a cantar as músicas em português, com um particular gosto. As canções em inglês eram um bocadinho densas e nunca fiz canções com grandes coros para o pessoal todo a cantar e, talvez esta proximidade da língua permita que as pessoas entrem no universo que fui tecendo ao longo dos anos com maior facilidade.
