[Crónica] Piões das nicas

Adélio Castro CRÓNICAS/OPINIÃO

O rosto espantosamente sereno, daquela mulher grávida, que afagava delicadamente o ventre ensanguentado, imanava irresistivelmente o olhar. Só com um desconfortável esforço, dele me consegui desfocar e atentar nas feições de contido sofrimento dos homens que, numa maca rudimentar, a resgatavam daquele inferno de destroços por entre prédios esventrados e crivados de balas, calcando aos pés grandes ramos, que as bombas tinham estropiado das árvores, que há tão pouco eram sombra e primavera e agora, esquálidas, raquíticas e tristes desfraldavam, tão só, dor e morte.

A fotografia do fotojornalista ucraniano, Evgeniy Maloletka, desassossega, inquieta e dilacera-me com um infindável rol de dolorosas interrogações.

– O que é feito do pai do bebé Miron? Por onde anda o amado da Iryna Kalinina?

Terá o seu coração conseguido desenterrar uma réstia de alento para continuar a bater, depois de ver assassinado o seu filho no ventre da mãe?

Quererá ele mais, de uma vida que o fez abraçar o cadáver do filho, arrancado à pressa do ventre materno, que uma bomba assassina esfacelara?

Será que algum dia, os gritos dessa mãe que partiu a suplicar que a deixassem morrer, deixarão de o atormentar?

Será que tantos outros e outras, como ele, desalmados pela guerra, quererão futuros num mundo onde se parteja morte no templo da vida, onde se convertem maternidades em cemitérios?

Conseguirão eles continuar a viver, mortos por dentro?

Será que se tentarão salvar, salvando vidas, protegendo mães e bebés ucranianos da sanha das bombas assassinas, ou tentarão sepultar a sua dor sob uma pilha de cadáveres inimigos, tentando a morte numa qualquer linha da frente?

De que negro inferno se escapa esta irresistível vertigem da humanidade para o ódio e para a intolerância. Onde se ceva a maior e mais aterrorizante maldição da Humanidade, que desde os primórdios vem ensopando a sua História de sangue derramado por ordem de pretensos homens providenciais, que perante um qualquer conflito bradam aos ventos que nenhuma fraternidade, nenhuma partilha, nenhum diálogo é possível. Invariavelmente e sem exceção, a culpa disso é dos outros. Invariavelmente e sem exceção, também a solução é a guerra.

Uns milhões de mortes, de estropiados, de destruição e de muito sofrimento depois, quando o horror agonia até os mais negros diabos do inferno, percebe-se finalmente que aquele abismo nunca foi caminho e lá se resgata do desterro dos desdenhados, a fraternidade, a partilha e o diálogo. Sem tardança, a História repete-se e entre abraços, brindes e vivas, restaura-se, pela enésima vez, a paz, gritando-se, como se da primeira vez se tratasse, ingénuas juras de “nunca mais”. Bem depressa o futuro aprenderá o que ao passado esqueceu há muito, que este “nunca mais”, como todos os que o antecederam, não é mais que um triste “até breve”.

Parece que a partilha, a fraternidade, a tolerância e o diálogo só florescem quando regados com sangue, destruição e morte, como a História e esta fotografia, tão crua e fielmente, fazem prova.

Será que teremos de nos conformar com esta tão horrenda e insana pulsão predatória, ou será que um afortunado dia, seremos capazes de calar, de uma vez por todas, este malfadado fado tão imensamente absurdo, tão insuportavelmente doloroso e tão incomensuravelmente desumano.

Ouço já a vozearia dos céticos entoando velha sina, que isso de mudar fados é reserva dos poderosos, a nós, os piões das nicas, os irrelevantes cidadãos anónimos, cumpre-nos apenas sofrer, sangrar e morrer por sua especialíssima mercê.

Perdoem-me lá o mau jeito, mas eu, que pouco ou nada percebo disto, tenho, como qualquer tuga que se preze, outra fezada.

É certo e bem sabido, que entre os piões das nicas, medram a eito ódios e intolerâncias que chegam para envergonhar este mundo todo e metade de outro mundo qualquer. Na verdade, estes matam os inimigos nas guerras, os irmãos por uma courela raquítica, os condutores por uma troca de epítetos à moda do Porto, os boémios por uma fútil desavença numa qualquer discoteca e amigos por uma infantil discussão sobre futebol. Assassinam, violam e agridem mulheres em nome do amor, ou do fim dele. Acirram ódios desmedidos contra países, raças, etnias, imigrantes e sexualidades alheias.  

Ora, conhecendo-se a natureza humana, como se conhece, é tão certo como a morte, que sem delongas, a cada afronta daquelas seguir-se-á uma vingança exemplar, à qual, por sua vez, se seguirá novo desforço, que também terá o troco devido e assim sucessivamente e sem parar, nem sequer para respirar. Este círculo viciado e infernal, gerará uma onda crescente de desgraçados que são, durante toda a vida, umas vezes vítimas e outras tantas algozes.

Logo que esta vaga parida pelo ódios dos piões das nicas se agigante até ao ponto de não retorno, os poderosos, a rebentar de impaciência, derramam-lhe umas últimas doses extras do ódio e outras tantas de intolerância, agitam os velhos fantasmas dos medos, puxam o lustro aos nacionalismos e aos orgulhos bacocos e, finalmente, oferecem-se generosamente, obviamente com excruciante sacrifício pessoal, como homens providenciais, para salvar todos os piões das nicas do terrível inferno dos seus algozes. Eternamente gratos, estes correm a levar em ombros e sob pálio dourado, que o respeitinho é muito bonito, o inefável homem providencial até ao altar do poder.

Este, ainda antes de aquecer o lugar, brada já a todos os ventos que nenhuma fraternidade, nenhuma partilha e nenhum diálogo é possível e que é inevitável que os piões das nicas se vão matar numa guerra santa, novinha em folha.

Se calhar os piões das nicas podem mesmo calar este malfadado fado.

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