[Entrevista] “Às vezes parece que o Portugal real só serve para alguns se divertirem”

ATUALIDADE DESTAQUE

Os Glockenwise deram concerto de casa cheia e pleno de energia no Centro Cultural Municipal de Vila das Aves onde, em quase noventa minutos de guitarras delirantes, exploraram o novo disco, “Gótico Português” e os sucessos que fazem da banda de Barcelos um dos nomes fortes do rock nacional.

Entre Barcelos e Vila das Aves há mais semelhanças do que diferenças. Nuno Rodrigues (NR) e Rafael Ferreira (RF), respetivamente vocalista e guitarrista dos Glockenwise, notaram-no logo que chegaram a território avense para o concerto no festival Sonoridades. O património e o legado da têxtil, sim, mas muito mais.

Em conversa com o Entre Margens, a dupla refletiu sobre o disco “Gótico Português” enquanto ensaio sobre identidade cultural e o conceito de portugalidade que de um momento para o outro se transformou na pedra de toque da produção musical nacional.

A carta de amor ao Minho e às bizarrias que lhes permearam a infância, recentram-os no seio da cultura da qual até tentaram fugir e agora percebem é um estado de espírito hereditário que somente se manifesta de formas distintas de outras gerações.

O “Gótico Português” é um grande ensaio sobre identidade. O álbum sempre foi pensado como um mission statement para os Glockenwise?

NR: Dizer que é um statement talvez seja ambicioso de mais. Não partimos a pensar que queremos fazer grandes proclamações. É um disco sobre identidade numa altura em que escrever sobre identidade está na espuma dos dias, sendo que esta é a nossa forma de abordar a questão. Talvez porque nós próprios tenhamos a nossa identidade toda partida por tantos espaços, sítios e anos.

RF: Não querendo fazer um statement, os discos acabam por sê-lo por si mesmos. Sempre que fazes uma edição marcas o momento. Fica cravado naquele tempo, daquela forma e depois tens que lidar com isso.

Não é um disco imediato. É expansivo, conduz-nos entre vários momentos, com canções entrecortadas com os excertos da ceramista Rosa Ramalho, quase como narrador omnisciente. Como é que foram lapidando este universo simbólico ao longo do processo de criação?

NR: De uma maneira bastante orgânica e instintiva. Não nos debruçamos sobre isto como um centro de investigação. Não temos tempo, nem habilidades, nem o modus operandi académico (risos)

Isto começou por estarmos a tocar num sítio que era tão bizarro, tão estranho [Museu de Lamas] e ao mesmo tempo tão familiar que nos transportou para uma estética que tinha que ser explicada. Nós compreendíamos, mas como é que o traduzíamos e explicávamos às outras pessoas? Começamos a juntar os pontos e a perceber que a criatividade bizarra permeia-nos e está um pouco por todo o lado desde a nossa infância, nas nossas raízes. Acabou por ser natural pensarmos na Rosa Ramalho como uma agente deste tipo de cultura.

Muitas vezes quando se pegam neste tipo de figuras é em tom de gozo e condescendência. Neste caso há carinho.

NR: Até com alguma incompreensão, receio e estranheza. O que pretendíamos não era imolar uma estética ou apropriá-la, mas sim demonstrar o quão diversa estranha pode ser, demonstrando que não é só uma estética de arte e cultura popular, mas está ligada a um modo de vida que vai das crenças isotéricas até aos pequenos objetos do dia a dia. De uma atitude geral que herdamos. Os nossos pais atiraram-se com o mesmo tipo de bravado à criação de pequenas indústrias e hustling diário como nós metemos instrumentos em comboios para ir tocar a Lisboa quando ainda nem sequer tínhamos carta de condução.

Em Vila das Aves é difícil não encontrar pontos de contacto com o imaginário do “Gótico Português”. Viver nessa espécie de limbo constante entre estar próximo dos centros, mas continuar sempre na margem. Como é que se relacionam com esta dualidade?

RF: Aqui em Vila das Aves faz todo o sentido, sendo uma terra conhecida pela indústria têxtil. É parecido estar em Barcelos ou estar aqui.

NR: É muito diferente estar num espaço ermo no Portugal setentrional ou estar no meio do Minho que é um território cheio de retalhos, mas com um grande sentido de comunidade. Não há uma sensação de isolamento total. É um isolamento mais material.

RF: Há um sentimento de identidade local muito forte. E é esse sentimento que torna possível que Vila das Aves tenha um auditório. É este sentimento identidade que torna o Minho num território diferente. Em Lisboa, por exemplo, o que está à volta parece que só existe como dormitório. Aqui, não. As pessoas vivem.

Há uma clara divisão no vosso percurso discográfico, antes e depois do “Plástico”. O que é que encontraram nesse processo que vos permitiu trilhar um novo caminho?

RF: Houve um conjunto de aprendizagens que nos fez trabalhar de forma diferente. Foi a primeira vez que gravamos sem ser ir para uma sala durante três dias e tocar tudo. Percebemos que em termos de processo podíamos fazer de outra forma. O “Plástico” foi importante porque nos permitiu gravar o “Gótico Português” de uma forma completamente independente, sozinhos, numa sala nossa.

Temos o dia ocupado com outras profissões e se calhar nestes ensaios estão a tocar-se os primeiros acordes de um disco que pode só vir a sair daqui a quatro anos.

Depois do sucesso com o “Plástico”, estavam à espera desta receção quase unânime ao “Gótico Português”?

RF: Ficamos super contente, mas é curioso porque este disco é quase uma demissão de tentar chegar a muita gente. É a prova que este meio funciona de forma muito aleatória. Há uns pontos de controlo, mas nunca consegues adivinhar a cem por cento.

NR: Havia uma expectativa não premeditada com o “Plástico” de ser algo mais abrangente e chegar a mais gente. Com este foi o contrário. Pensamos, se calhar, vão colocar-nos de lado. Chegamos a ainda mais pessoas, mesmo não sendo muito radiofónico. Não é um disco de playlist. É um exercício diferente.

Penso também que o disco saiu num momento em que as pessoas estavam disponíveis para ouvir. Este tópico da portugalidade está na consciência coletiva. E embora este disco não seja uma resposta a isso, é curioso que esteja a acontecer ao mesmo tempo.

RF: As pessoas estão fartas de que sempre que se fala em portugalidade seja uma palhaçada geral. Às vezes parece que o Portugal real só serve para alguns se divertirem.

NR: Há uma ideia de apropriação e extração que eventualmente vai chegar a um ponto de saturação e quando tal acontecer passará outra coisa a ser engraçada.

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