[Editorial] Uma guerra para durar

CRÓNICAS/OPINIÃO Diretor

A guerra de invasão da Rússia à Ucrânia começou há quatro anos. A “operação militar especial” foi ordenada por Putin para “desmilitarizar e desnazificar” a Ucrânia independente, nascida da dissolução da União Soviética, em 1991. Aquela declaração de intenções teve como antecedentes a anexação da Crimeia em 2014 e espelhava a vontade russa de impedir a aproximação da Ucrânia à União Europeia e à NATO motivada pela vontade ucraniana de se libertar da influência russa.

A expetativa de submeter a Ucrânia em poucos dias resultou num pesadelo que já leva quatro anos. A Rússia já terá tido, segundo estimativas de meios bem informados, um milhão e duzentas mil baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos. A Ucrânia tem um número de baixas total de mais de meio milhão segundo as mesmas fontes e, por todo o lado, um extenso cenário de destruição. Em termos de ocupação do território pelas tropas russas não parece ter havido grandes alterações nos últimos meses. Não há vantagens para ninguém. A estratégia parece ser aguentar a situação: para ver quem esgota primeiro os recursos materiais e humanos e abandona o combate por exaustão.

Ao longo destes anos, houve alterações substanciais no modo de fazer a guerra. Agora, com recurso a drones e outros pequenos objetos voadores não tripulados, guiados remotamente ou autoguiados com recurso a GPS, é possível causar destruição em estruturas e edifícios muito distantes, tornando a vida muito difícil no duro inverno da região. Dantes, diz-se que havia uma espécie de código de honra da guerra, evitava-se atacar alvos civis. Isso acabou, porque a identificação dos alvos nunca foi tão simples e imediata e os projéteis são destinados a localizações exatas.

Também acabou parte da solidariedade para com o povo ucraniano, nomeadamente a dos Estados Unidos da América, que adotaram uma visão mercantilista da sua ajuda à defesa da Ucrânia: “claro que sim, ajudamos, desde que a Europa compre e pague a fatura”.

É certo que Trump vai tentando promover cimeiras para um acordo de cessar fogo ou de paz. Mas, ao mesmo tempo, vai sugerindo que o país invadido vai ter que ceder território ao invasor, já que não consegue expulsá-lo de lá. Putin e Trump usam a mesma lógica de conquista, de domínio e de sujeição para com os vizinhos que atrapalham as suas ambições de grandeza.

É isso que garante que a guerra na Ucrânia não vai parar tão cedo. E que outras, entretanto, começarão.

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