[Opinião] Lições transatlânticas

Ana Isabel Silva CRÓNICAS/OPINIÃO

Há conversas que regressam quando menos esperamos. As eleições no Brasil fizeram-me lembrar uma conversa com pessoas que tenho o enorme prazer de chamar amigas, sobre os anos da pandemia nesse país. Para reavivar a memória, na altura o presidente do Brasil Jair Bolsonaro chamava a Covid-19 de “gripezinha”. O governo não protegeu as pessoas que continuaram a ter de ir trabalhar e a apanhar os transportes públicos lotados. Mais de 700 mil pessoas morreram de Covid-19, com o Brasil a ter o segundo maior número absoluto de mortes no mundo. Na altura parecia impossível esquecer. Mas a política também é feita da forma como lembramos e daquilo que escolhemos esquecer.
Na primeira volta das presidenciais, Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, foi o candidato mais votado, com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula da Silva. Cerca de 2,2 milhões de votos separaram os dois. O resultado mostrou a força de um movimento da extrema-direita que está longe de desaparecer.
É difícil explicar o Brasil a partir de uma única razão, e eu não me atreveria a fazê-lo. O que deixo aqui são algumas ideias soltas, numa tentativa de organizar o meu próprio pensamento e, quem sabe, contribuir para uma conversa que nos ajude, no futuro, a compreender melhor o que está a acontecer.
Há quem culpe as redes sociais e o permanente descontentamento pelas condições de vida que isso traz. A verdade e que os dados mostram que o Governo Lula apresentou resultados. O desemprego caiu para valores historicamente baixos, os rendimentos mais baixos passaram a beneficiar de isenção de imposto e a desflorestação da Amazónia caiu. Ainda assim, para muitos brasileiros, a vida continua cara. Alimentação, habitação e transportes pesam num país profundamente desigual e de salários baixos. Talvez esteja aqui parte do problema. Não basta dizer às pessoas que os indicadores melhoraram. É preciso que sintam que a sua vida melhorou e consigam imaginar que amanhã poderá ser melhor. Garantir a esperança.
Lula parece ainda demasiado preso à sua própria história. O seu legado é incontornável, mas eleições não se ganham apenas com aquilo que se fez. Ganham-se também com uma ideia de futuro. Continua a ser difícil perceber quem poderá suceder-lhe e que projeto político existirá depois dele. Esta ausência de renovação é difícil de compreender.
Mas não foi apenas o Lula que saiu fragilizado destas eleições. Manuela d’Ávila, depois de um afastamento da política durante os anos de Bolsonaro, regressou agora à disputa eleitoral, mas não conseguiu eleger-se para o Senado. Também Gleisi Hoffmann, antiga presidente do PT, ficou de fora no Paraná e Marina Silva não conseguiu chegar ao Senado por São Paulo. Exemplos que demonstram como as dificuldades deste campo político vão muito além da candidatura presidencial.
Do outro lado, o bolsonarismo mostrou novamente a sua capacidade de mobilização. Flávio Bolsonaro segue agora para a segunda volta e procura agregar o apoio dos restantes candidatos da primeira volta. Ao mesmo tempo, o nome Bolsonaro ganhou ainda mais espaço peso. Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal, Carlos Bolsonaro conquistou um lugar no Senado por Santa Catarina, enquanto Jair Renan Bolsonaro e Renato Bolsonaro foram eleitos para a Câmara dos Deputados.
Há um ressentimento disperso que encontrou no bolsonarismo não necessariamente uma solução, mas uma voz. Transformou a política numa guerra cultural permanente. Talvez por isso nem a memória da pandemia, nem os indicadores económicos, nem os escândalos sejam suficientes para quebrar esta divisão.
Os nossos colegas brasileiros não estão sozinhos. Nos Estados Unidos vimos algo semelhante e veremos no futuro próximo na Europa. Mas também não estarão sozinhos na disputa pelo futuro e pela esperança que será preciso reconstruir.

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