Quando estava no quinto ano, a minha turma era claramente a melhor equipa de futebol da escola, do mesmo ano. Não por minha causa, que nunca tive grande jeito para a bola, mas por três ou quatro que se destacavam. Não obstante, na preparação para o primeiro jogo do torneio da escola, os craques fizeram a promessa aos restantes menos dotados, entre os quais eu, de que todos jogariam, nem que fosse por pouco tempo. Assim que estivéssemos a ganhar folgadamente, poderíamos entrar à vez. Não aconteceu. O jogo complicou-se (penso que empatámos) e não deu para retirar nenhum dos melhores. Ficamos tristes por não termos jogado, mas compreendemos que não seria possível.
A recordação deste episódio serve, para mim, para elucidar duas coisas acerca do “caso Ronaldo”. Por um lado, a seleção nacional vem sendo gerida a um nível que não é sequer admissível num interturmas. Enquanto as outras seleções no mundo têm essa prática exótica de priorizar a escolha do melhor elenco de jogadores, combinada com o melhor plano técnico-tático, em vista de vencer jogos e conquistar troféus, nós andamos há anos a brincar a outro jogo, o da gratidão pelas dádivas do passado de um jogador. Estranho é ficarmos surpreendidos pelo nosso insucesso nos torneios mais recentes.
Por outro lado, um homem de 41 anos, capitão de equipa e de estatuto estonteante, não consegue, ou não quer, compreender o que é evidente para rapazes de 10 anos.
Em Portugal, há uma parte do país que vive uma ilusão em relação a Ronaldo. Não é exclusiva deste país, nem de Ronaldo. É bastante comum na relação entre as estrelas e os seus fãs. Trata-se de um viés cognitivo, estudado pela psicologia, chamado de efeito de aura. Este define-se por uma tendência psicológica de atribuirmos o mesmo valor positivo às demais características de alguém que admiramos muito. Por outras palavras, de alguém de quem somos fãs por um talento específico, tendemos a encarar todas as outras características dessa pessoa na mesma proporção.
É muito difícil admitir dissonâncias de carácter nos astros de quem tanto gostamos. Mas estas existem, não raras vezes, e no Ronaldo estão visíveis para quem as quer ver.
Lamento desiludir, mas o carácter de CR7 nunca acompanhou a sua qualidade futebolística, e não são poucos os casos que atestam essa dissonância.
Uma parte do país projetou nele qualidades de carácter que nunca existiram, ao mesmo tempo que procurou (e ainda procura), quase psicanaliticamente, descortinar no seu rival, Messi, falhas latentes de um suposto vilão que o tempo tarda em revelar.
Dir-me-ão que isso é irrelevante. O que torna Ronaldo especial, tal como outras estrelas do desporto e das artes, é o seu talento e não o carácter moral. Por algum motivo, é a France Football, e não a ONU, que atribui a Bola de Ouro.
Certo, mas à medida que a qualidade futebolística de CR7, fruto da natural e inexorável biologia, foi descendo, o pior do seu carácter foi-se tornando um problema futebolístico para a seleção de todos nós, e este último episódio foi a gota d’água.
O país dividiu-se em duas trincheiras e arrisco-me a dizer que subjaz a cada uma delas um projeto distinto de país.
É a escolha entre acolher a grandeza para transcender ou vergar os joelhos perante um homem providencial.
No meio disto tudo parece que foi aprovada uma nova lei do arrendamento que nos leva à segunda opção. Mas isso são outros futebóis.
