Projeto educativo fascinou presidentes da República, escritores e artistas, mas a história da “Ponte” também se conta pelas lutas travadas para garantir a sua própria autonomia. No arquivo do Entre Margens estão plasmados os episódios pelos quais se coseu um legado com cinco décadas.
As portas do mundo ficaram escancaradas para a “Ponte” na viragem para o novo milénio. Rubem Alves, escritor e pedagogo brasileiro visitava pela primeira vez a instituição que o inspirou a editar “A Escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir”. Desse momento em diante, o projeto educativo passou a voar sobre o Atlântico e a atrair a atenção de educadores dos quatro cantos do mundo.
Quando regressou à “Ponte”, em maio de 2002, Rubem Alves concedeu uma entrevista ao Entre Margens sob o poético título “é essencial educar as crianças para perceberem a beleza”. Durante a conversa, o escritor revela “o espanto gostoso” com que os leitores brasileiros receberam a obra e do combate que passou a existir ao conceito de escola enquanto “linha de montagem”.
“A escola da Ponte não pode ser reduplicada. Os princípios pedagógicos da escola são extremamente simples, mas a questão essencial, além dos princípios, é que aqui houve uma coincidência de fatores que permitiram que esses princípios ficassem vivos”, dizia ao Entre Margens.
“Duplicáveis são as linhas de montagem. As experiências com as crianças não podem ser duplicáveis. Pode colocar crianças numa linha de montagem, nessas escolas onde seguem os programas, mas não é isso que queremos. Pelo menos, na escola com que eu sonho: uma escola na qual a educação não é ciência, a educação é uma arte. Nunca sabe direito o que pode acontecer. Não existe receita para fazer arte”, rematou. “Muitas pessoas rejeitam essa escola precisamente porque tem um elemento de imponderável”.
Não o único notável a fascinar-se pelo projeto educativo desenvolvido na “Ponte”. Em 1998, o então presidente da República, Jorge Sampaio visitou a escola e rasgou-se em elogios para toda a comunidade educativa. Seis anos mais tarde, o mesmo Jorge Sampaio atribuiria uma condecoração ao professor José Pacheco.
Aos jovens, o Presidente deixou uma mensagem singela. “Mantenham sempre que possível os dedos no ar pelas vidas fora, porque isso mostra que querem dizer o que pensam e que há condições para dizerem o que pensam”, afirmou, citado no Entre Margens de 31 de janeiro de 1998.

Luta pela autonomia e por um modelo próprio
Enquanto projeto educativo inovador, talvez o aspeto mais relevante da sua implementação seja o facto de ter florescido no âmbito da escola pública. Das instalações da velhinha escola D. Maria Arminda, destinada só para raparigas, até à construção do edifício em “área aberta”, a “Ponte” sempre se movimentou nas margens da educação pública.
Daí que fosse natural que, mais tarde ou mais cedo, quando as ambições da instituição passaram por se alargar para lá do primeiro ciclo, a relação com a tutela política começasse a ganhar algum atrito.
E nesse novo milénio, cuja exposição transatlântica acrescentou uma camada extra de relevância, a luta pela autonomia e proteção dos valores fundamentais do projeto, foi intensa e jogada em modo muitas vezes de guerrilha nos bastidores políticos.
O alargamento ao segundo e terceiro ciclo exigiria instalações com outra dimensão, facto exponenciado pela intenção de avançar para a criação de um agrupamento de escolas Aves/Negrelos onde a “Ponte” seria elemento chave.
Em 2003, o então ministro da educação, David Justino, anunciou a recusa do alargamento do projeto ao terceiro ciclo, apesar do parecer positivo da Comissão de Avaliação, tendo como resposta uma “ocupação pacífica” da escola e a apresentação de um manifesto com cerca de 4 mil assinaturas.
“Não fecharam a escola a cadeado, mas ocuparam-na de forma “passiva, ordeira e cívica”, tal como ficara decidido na reunião da última sexta-feira da Associação de Pais da Escola da Ponte”, pode ler-se na edição de 15 de setembro de 2003. “A decisão foi tomada a uma só voz, e que os pais estão dispostos a mantê-la até que David Justino “tenha a humildade de se descolar à escola”, abrindo-se ao diálogo com a comunidade educativa para que se possa resolver “o problema da Ponte”.
Só em 2005, a escola conseguiu concretizar a ambição antiga de assinar com a tutela um contrato de autonomia que garantia a continuidade do projeto nos seus moldes. Um momento classificado como um “marco histórico na vida de uma escola pioneira que, durante quase 30 anos, permaneceu e foi mantida à margem de um sistema de ensino que só admitia um único modelo de organização escolar”.
Os conflitos com as entidades governamentais, no entanto, não se ficariam por aí. No ano de 2008 é anunciada a intenção de construir uma nova escola, de raiz, em São Tomé de Negrelos que incluiria a “Ponte”. A contestação sobe de tom e obriga a negociações intensas entre as partes que culminam em 2012, ano em que a tutela “força” a mudança da escola para as novas instalações de São Tomé de Negrelos, onde passaria a funcionar paredes-meias com a nova escola básica do agrupamento D. Afonso Henriques.
Entre os apelos à “desobediência” e as dúvidas sobre qua seria o futuro do projeto, agora do lado de lá do rio, no Entre Margens contavam-se as histórias daqueles que vindos de Lisboa, Porto e até do Brasil se instalavam no concelho para que os filhos pudessem frequentar a escola. Um fenómeno que hoje ganhou mais relevância e se conta por um dado muito simples. À época, eram 167 alunos. Agora, são quase cinco centenas e há lista de espera.
Apesar de se manter à margem da gestão do dia a dia do projeto que ajudou a construir, desde 1976, José Pacheco não se desvia dos ideais com que foi trabalhando ano após ano e década após década. De visita a Portugal, em 2019, o docente criticava aquilo que considera ser uma falácia do trabalho do professor numa sala de aula.
“A profissão de professor não é um ato solitário, é um ato solidário. Não faz sentido nenhum ter um professor sozinho na sala de aula. Um professor sozinho em sala de aula sofre porque sabe que não chega a ninguém, chega a todos e não chega a ninguém”, afirmava, em julho de 2019. “O trabalho de equipa, a cooperação é uma das competências maiores do séc. XXI”.
A celebrar cinquenta anos, o projeto mostra-se vivo. As convulsões com a tutela são fogachos no espelho retrovisor. Há questões para resolver, nomeadamente a falta de espaço nas novas instalações, pelo crescimento exponencial da procura que o projeto tem tido. Da pré-escola ao 9º ano de escolaridade. Apesar de todos os avanços e recuos. Da guerras e lutas, umas bem-sucedidas, outras nem tanto, “o projeto educativo mantém exatamente o mesmo e extremamente atual”, garante a atual gestora, Alexandra Ferreira.
