[Crónica] Memórias da fauna piscícola de Ambos os Aves (XI)

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

SÁVEL (Alosa alosa) (continuação)

O sável, tal como os restantes anádromos, ao chegar, rio adentro, em grande número, no fim do inverno e inícios da primavera, era uma verdadeira dádiva para as comunidades ribeirinhas. “Sáveis por São Marcos[1], enchem os barcos” assim se dizia sobre a fartura deste peixe sazonal.

Aliás, as gorduras acumuladas por estes peixes davam-lhes um sabor especial, apreciado por todos. Daí que também se dissesse que “Boa he a truyta, bom o salmão, bom he o sável, quando he de sazão[2][3]. Nas margens do Douro, era pescado e frito, ou então limpo para depois ser conservado em salmoura, escabeche[4] ou defumado. Esta última técnica, hoje está na moda, e é, cada vez mais, utilizada pelos inúmeros restaurantes das margens do Porto, Gondomar e Penafiel, entre outras localidades, que o defumam em serrim. Certamente, que o seu uso na gastronomia ribeirinha do Ave não haveria de ser muito diferente. A distância temporal do seu desaparecimento impede-nos já de registar quaisquer memórias gastronómicas. Restam-nos pequenos apontamentos, como o de 1842 na freguesia vimaranense de Penselo, onde, entre outros peixes, é indicado que o sável podia ser consumido com batatas, arroz e grelos, conforme a vontade de cada um[5].

Nas Memórias Paroquiais de 1758 é referida a existência de sáveis no rio Ave em, pelo menos, quinze freguesias de cinco concelhos. Em Vila do Conde, o redator de Ferreiró[6] indica-nos que subiam o rio em março e abril; o de Tougues[7], de fevereiro a maio; o de Azurara[8] na primavera; o de Vila do Conde[9] em fevereiro, março e abril; enquanto o da Junqueira[10] omite esta informação. O registo deste peixe também foi descrito pelos párocos de São Martinho de Bougado[11] (Trofa), Ribeirão[12], Bairro[13] e Delães[14] (Famalicão). O Abade de Santo Tirso[15] indica que, por norma, a espécie, quando sobe o rio, “vem tarde[16], enquanto os párocos de Areias[17] e da Lama[18] só citam a sua existência, tal como os redatores das freguesias vimaraneses de Silvares (Santa Maria)[19] e São Cláudio do Barco[20], o local mais a montante destas narrativas.

SANTOS – “Santo Tirso-Rio Ave-Ínsua” [Documento icónico]. Santo Tirso/Itália: Edição da Comissão Municipal de Turismo, [s.d.]. 15x10cm. Bilhete-postal não circulado.

O pároco de Ronfe[21] surpreende-nos, uma vez mais, com os seus relatos e considerações. Por um lado, transmite que o sável e a lampreia só chegavam à sua freguesia se houvessem grandes cheias. De facto, só com um caudal de níveis muito altos é que os anádromos conseguiam contornar as numerosas armadilhas que os aguardavam rio acima. O mesmo conta também que “há poucos anos se caçaram, de uma chumbeirada[22], dezoito sáveis”. As suas deduções, acerca do comportamento da espécie, são curiosas dado que refere que tem “observado que os barbos se vão ao mar fazer sáveis e tornam a morrer à água doce (…)[23] o que, como hoje sabemos, não corresponde à realidade. Todavia, e conforme já indicamos em artigo anterior, as observações deste redator, num tempo em que os conhecimentos de etologia piscícola eram escassos, não deixam de ser reveladoras do modo de como se indagava o assunto.  


[1] Dia 25 de abril.

[2] Sazão: estação do ano ou tempo propício para alguma coisa.

[3] BLUTEAU, Rafael – “Vocabulario Portuguez, e Latino (…)”. Coimbra, Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Vol. VIII. Lisboa: Officina de Pascoal da Sylva, 1721. P. 317.

[4] SOEIRO, Teresa – “Pescadores de Terra Adentro”. Revista Oceanos. Os Pescadores. N. º47-48 – julho/dezembro 2001. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001. P.156.

[5] “Inquérito paroquial de 1842” – S. João Baptista de Penselo. Revista de Guimarães, 108 Jan.-Dez. 1998. Pp. 441-449.

[6] [ANTT], “Memórias Paroquiais”, vol. 15, nº 55, p. 359 a 366. Código referência PT/TT/MPRQ/15/55.

[7] Idem, vol. 37, nº 82, p. 923 a 928. Código referência PT-TT-MPRQ-37-82.

[8] Idem, vol. 5, nº 85, p. 1077 a 1082. Código referência PT-TT-MPRQ-5-85.

[9] Idem, vol. 40, nº 195, p. 1161 a 1186. Código referência PT/TT/MPRQ/40/195.

[10] Idem, vol. 18, nº (J) 46, p. 303 a 306. Código referência PT/TT/MPRQ/18/189.

[11] Idem, vol. 7, nº 53, p. 1087 a 1098. Código referência PT/TT/MPRQ/7/53.

[12] Idem, vol. 32, nº 106, p. 627 a 630. Código referência PT/TT/MPRQ/32/106.

[13] Idem, vol. 6, nº 6, pp. 33 a 38. Código referência PT/TT/MPRQ/6/6.

[14] Idem, vol. 13, nº 11, p. 61 a 64. Código referência PT/TT/MPRQ/13/11.

[15]  Idem, vol. 36, nº 56, pp. 355 a 362. Código referência PT/TT/MPRQ/36/56.

[16] Rafael Bluteau também referia um outro provérbio sobre a má qualidade do sável que vem depois de abril: “Saveis de Mayo, maleytas de todo o anno”. BLUTEAU, Rafael. Idem, ibidem.

[17] Idem, vol. 4, nº 61, p. 335 a 338. Código referência PT/TT/MPRQ/4/61.

[18] Idem, vol. 19, nº 28, pp. 153 a 156. Código referência PT/TT/MPRQ/19/28.

[19] Idem, vol. 35, nº 164, p. 1225 a 122. Código referência PT/TT/MPRQ/35/164.

[20]  Idem, vol. 6, nº 35, pp. 289 a 294. Código referência PT/TT/MPRQ/6/35.

[21] Idem, vol. 32, nº 155, pp. 949 a 952. Código referência PT/TT/MPRQ/32/155.

[22] Rede chumbeira circular munida de pequenas chumbeiras na extremidade. O mesmo que tarrafa.

[23] Idem, ibidem.

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