[Crónica] A Violência Limpa e a Violência Suja

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

A tradição oral e escrita, existente em torno do Mar Mediterrâneo, possui um legado tão rico que a humanidade nunca poderá esquecer. Desde a Península Arábica, à Ibéria e ao Saara, quase todas as sociedades tiveram momentos de grande apogeu civilizacional. A invenção da agricultura, da escrita, dos impérios, do Estado, da Democracia, das grandes religiões, as explorações náuticas pelo mundo, as inovações arquitetónicas, tecnológicas e artísticas, entre outras consubstanciações de ideias, dominam os imaginários nacionais e nacionalistas dos países e nações que circundam o antigo Mare Nostrum romano. Contudo, hoje, em plena era pós-colonial, o momento da história em que mais conhecimento há sobre todos estes temas, devido aos elevados índices de instrução secundária e universitária, coincide com o momento da subjugação do saber ao ódio, em que a violência prevalece sobre tudo. É um paradoxo da Humanidade.

Dissimuladas por ideologias políticas e religiosas, as riquezas naturais petrolíferas do Médio Oriente têm sido, sobretudo, o motivo destes conflitos. De facto, a velha máxima dos bastidores interesseiros da diplomacia internacional – de que “entre países não há amizades, mas sim interesses” – apresenta-se, cada vez mais, como o princípio a ter em conta. Na realidade, a Democracia só existe quando não perturba o capital e catapulta o lucro. Quando incomodam, as Democracias caem depressa. Veja-se o caso do Egito. O seu atual presidente, o General Abdel Al-Sisi, em 2013, através de um golpe de Estado, destituiu Mohamed Morsi, o primeiro presidente democraticamente eleito nesse país. Morsi morreu, em 2019, enquanto era julgado e muitos outros do seu partido foram condenados à morte e a penas de prisão perpétua. Para Al-Sisi foi fácil classificar os eleitos de “terroristas”. Este militar, antes e depois de chegar ao poder, tem colaborado, sistematicamente, com Israel, com os EUA e com o Ocidente. A sua ditadura serve os interesses da segurança de Telavive e os lucros ocidentais no Canal do Suez. Além do país dos faraós, poderíamos ainda explanar observações idênticas sobre as tiranias de monarquias e teocracias desta região que, na embriaguez das receitas do petróleo e das suas políticas conservadoras, atropelam os Direitos Humanos.  

Israel, protegida pelo Ocidente, tem sido anunciada, por muitos políticos europeus, como “a única Democracia do Médio Oriente”, como se tratasse do oásis da Liberdade no meio do deserto do obscurantismo árabe. Nas últimas semanas, a frase tem sido repetida, em especial pelos comentadores televisivos portugueses. Só que, entre os eufemismos da linguagem que usam, não referem que houve ditaduras que nunca jorraram tanto sangue e sofrimento como o que a Democracia israelita tem espalhado nos territórios que ocupa ilegalmente. Os governos ultrarradicais deste país vivem numa autofagia da violência. Quanta mais houver, melhor. Assim, podem continuar, de forma indecente, a ridicularizar a criação de um Estado Palestiniano. Benjamin Netanyahu tem a face de um autocrata. Ao longo da história, existiram vários ditadores que nunca tiveram tanto jeito para déspota como este suposto “democrata”. É igual a Putin. Ambos são pistoleiros da extrema-direita. Quantos mais ataques aos seus povos, mais popularidade ganham.

Depois de diversos boicotes de federações de futebol asiáticas à Federação de Futebol de Israel, em 1994, a mesma foi integrada na UEFA. Contrariando a essência do espírito olímpico e desportivo, da amizade entre os povos, ainda hoje, esta seleção joga no Campeonato da Europa e os seus clubes jogam na Liga dos Campeões. Aquando das primeiras sanções da UEFA, para com a seleção da Rússia, devido à invasão da Ucrânia, o primeiro jogo a ser cancelado foi com… Israel. Será que veremos os russos a jogar na Confederação Asiática de Futebol? Não seria de admirar…. Afinal, as administrações dos dois países não são muito diferentes. Cultivam estados militarizados, o desenvolvimento da tecnologia do armamento e a habilidade chico-espertista nos meandros da política internacional.

O Presidente russo ganhou créditos para avançar com o seu ímpeto expansionista, quando, em 2014, os ultranacionalistas ucranianos incendiaram a Casa dos Sindicatos de Odessa, e aí queimaram vivos 43 manifestantes pró-Rússia. Tal como este, Netanyahu obteve plenos-poderes para avançar, uma vez mais, contra a Palestina, quando o Hamas concretizou o massacre de 7 de outubro. Tudo isto fez já esquecer os protestos contra a reforma judicial, em prol da Democracia israelita do ano 2023. Mais: se as chacinas – como a do Hamas ou a de Odessa – forem feitas com os sabres e kalashnikovs, tanto melhor. É a violência suja. Interessa que exponha a barbárie com a cor do sangue e do fogo, que tenha impacto na televisão, na internet e nos comentários mais básicos das redes sociais.  É a primeira parte da receita que mais agrada aos déspotas, a que empolga o medo e promove o pânico coletivo. O segundo momento dessa receita, proporciona a oportunidade gratuita da vingança. É a violência límpida dos bombardeamentos. Nela, não se conspurca a higiene visual. Surge na escuridão da noite, para não ser filmada, e reduz os seres humanos a cinzas e pó, invisíveis e difíceis de detetar debaixo dos escombros. A sua eficácia é absoluta, dado que mata cinquenta vezes mais.  

As chacinas realizadas pelo Hamas e pelo Estado de Israel, de há um mês para cá, são execráveis. Não têm desculpa. O regime de Apartheid e os campos de refugiados impostos a todos os palestinianos são abomináveis. Israel colhe os frutos das tempestades que semeia, dado que apoiou o Hamas à nascença, em 1987, quando este se rebelou contra as fações moderadas progressistas da Organização para a Libertação da Palestina, cujo líder, era Yasser Arafat. A demora e o desprezo pelo tão ansiado Estado da Palestina, são uma vergonha indesculpável. Enquanto isto acontecer, vão continuar a surgir atentados, em especial entre as populações urbanas dos países ocidentais. Simultaneamente, a extrema direita do Irão, entre o seu eixo de influência internacional, vai ganhando, cada vez mais, argumentos para possuir um arsenal atómico, o modo mais limpo de todas as defesas.  

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