[Opinião] “This Guy”

Ana Isabel Silva CRÓNICAS/OPINIÃO

Se ouviram que o debate presidencial americano foi desastroso, acreditem. Eu assisti à hora e meia de debate: foi muito pior. Em novembro, os americanos irão às urnas. Após as primárias, Donald Trump foi confirmado como candidato republicano, apesar de todas as controvérsias e condenações. Do lado democrata, a renovação falhou e Joe Biden permanece como candidato, representando uma continuidade sem vigor.

Este primeiro debate entre candidatos foi um verdadeiro desastre. “This guy” (este gajo) foi a frase mais repetida, simbolizando a troca incessante de acusações, a ausência de propostas concretas e, acima de tudo, a evidente senilidade de ambos os candidatos.

Trump mostrou-se igual a si mesmo, mas com menos energia. Biden, por sua vez, foi a grande desilusão da noite. Num momento em que até os democratas questionam a sua saúde, mostrou não estar apto para debater, apresentando vários momentos de confusão, o que tornou doloroso assistir ao confronto. O Washington Post chegou a apelar para que deixasse a corrida presidencial, refletindo o desânimo generalizado com a sua performance.

A economia, considerada uma das maiores preocupações dos americanos, foi um dos principais tópicos do debate. A crescente inflação durante o mandato de Biden foi amplamente discutida, com o presidente culpando a má gestão da pandemia feita por Trump como principal fator, num discurso sempre arrastado e desanimador. Trump, por outro lado, alegou que deixou a economia americana em seu melhor estado antes da pandemia. Criticou Biden por criar empregos que beneficiam mais os imigrantes do que os americanos e afirmou que os cortes de impostos que implementou foram benéficos para a economia, prometendo que mais cortes seriam feitos caso eleito.

No tópico de segurança internacional Biden destacou que, sob seu comando, os EUA não têm baixas em conflitos globais, ao contrário de administrações anteriores. Trump, no entanto, criticou a saída desastrosa do Afeganistão e prometeu que teria retirado as tropas com dignidade.

Sobre a interrupção voluntária da gravidez, Trump afirmou que não bloquearia medicamentos abortivos e que a decisão sobre o aborto deveria ser deixada para os estados. Acusou os democratas de serem radicais, alegando que eles até apoiam o aborto após o nascimento. Biden defendeu o retorno da legislação ao estado anterior, garantindo o direito ao aborto até o primeiro trimestre, argumentando que a decisão deve ser feita entre a mulher e o seu médico, e não pelos políticos.

A imigração foi outro tema polémico. Biden foi criticado por Trump por não conseguir controlar a imigração ilegal, enquanto Biden relembrou as políticas severas de Trump, como a separação de mães e filhos na fronteira. Trump continuou a associar imigrantes a criminalidade e terrorismo, dizendo mesmo que os imigrantes viviam em hotéis de luxo em Nova Iorque.

Quanto às mudanças climáticas, ambos os candidatos falharam em abordar seriamente a questão. Trump gabou-se de ter tido os melhores indicadores ambientais durante o seu mandato, enquanto Biden disse isso ser mentira e afirmou ter passado a melhor legislação da história sobre o assunto. No entanto, nenhum dos dois teve grande vontade de aprofundar o tema.

O debate foi um reflexo da falta de renovação na política americana. As constantes trocas de acusações, a falta de clareza nas propostas e a evidente dificuldade dos candidatos em se articularem tornaram o debate doloroso de assistir. Em novembro, os eleitores terão a difícil tarefa de escolher entre dois candidatos que, infelizmente, não parecem representar uma esperança sólida para o futuro do país.

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