[Crónica] Vida por vida

Adélio Castro CRÓNICAS/OPINIÃO

Como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, o Meia-Leca, um nadita desconfiado, pousou de mansinho o pé nu naquele chão verde um tanto estranho, que sem cerimónias logo se pôs a fazer-lhe cócegas. Mais confiante e já de sorriso a espreitar, deixou o outro pousar e, antes que o diabo esfregasse um olho, já tinha desarvorado correndo, gatinhando e rebolando num picaresco frenesim, deliciado com as carícias da relva fresca. Não tardou a descobrir a gata que sornava ao sol, estremunhando-a com um abraço tão à moda do Norte, que ela, na primeira oportunidade, com um ar de “cruzes canhoto” se pôs ao fresco em passo de corrida para o mais longe possível. Ainda ela não estava completamente a salvo, já ele tinha virado o disco e tentava imitar a cegarrega que o “cucuru” empoleirado no diospireiro, arengava sem parar. Só as sirenes, lá ao longe a gritar aflições, paravam aquele tornado em forma de amostra de gente, para de dedito no ar dizer:

– Ti-nó-ni… Ti-nó-ni…, pai, mãe…

Agora, como há tantos anos, continua a assombrar-me aquela imensa curiosidade, aquela sofreguidão de aprender, de explorar e de rabear até à mais completa exaustão. Espantado, não consegui evitar uma pontinha de saudade daquele louco e permanente desassossego, da inocente meiguice daqueles olhares curiosos e dos sorrisos mais expressivos do que uma bela manhã de sol. Curiosamente senti-me mais leve do que quando, há muito anos, armado em super-homem de trazer por casa, me esfalfei para ser o melhor pai do mundo e arredores para as minhas duas Meias-Lecas. As lições que, sem cerimónias, os anos me arrojaram no lombo, ensinaram-me, entre muitas outras coisas, que as crianças são muito mais rijas do que aparenta aquela sua fofa fragilidade, que tanto nos aflige, mas, acima de tudo, meteram-me pelos olhos dentro que, por mais que viremos o mundo do avesso, só poderemos fazer por eles o quase nada que sabemos e o muito pouco que podemos. Por isso, eu sei agora, que isto não tem nada que enganar, é só apoiá-los sempre e em quaisquer circunstâncias e o resto é rezar…, rezar para que estas e o Duarte e David, em especial, é assim que se chamam os Meias-Lecas, desencantem têmpera e sabedoria, que baste, para enfrentar e vencer os muitos Golias que a vida, de certeza, lhes vai atravessar no caminho.

Os pais deles são os quatro Bombeiros e, por causa disso, lá de quando em vez sou chamado para o papel de tio/avô.

“Tenho muita vergonha que os sucessivos governantes ignorem olimpicamente a sua experiência, conhecimentos e conselhos que bem poderiam evitar, ou pelo menos atenuar, as terríveis tragédias dos incêndios que começam a ser normais”

Neste fim-de-semana, os pais do Duarte foram ambos escalados, como milhares de outros Bombeiros, para tentar evitar que este nosso belo país continuasse a ser cremado, como, impiedosamente, vinha acontecendo há um ror de dias. Como era a primeira vez que ele ficava sozinho com os tios-avós, o pai, de coração apertado, aproveitando uma manobra de diversão que os tios babados encenaram, pisgou-se de mansinho sem que ele topasse. Mais tarde, enquanto ele, como um gaio, chapinhava como se não houvesse amanhã e uma gigantesca coluna de fumo negro penumbrava a tarde com um precoce pôr-do-sol, o telefone sobressaltou-me as divagações, para perguntar, aí pela quarta vez, se o Meia-Leca estava bem.

Desde sempre senti uma imensa admiração por aquelas Mulheres e Homens que vemos a abrir as notícias lutando contra infernos de chamas da altura de prédios que, com uma sanha assassina, correm mais velozes que o vento incinerando vidas, bens e belezas. A verdade é que, sempre que nas nossas vidas alguma coisa dá para o torto, é Deles que primeiro nos lembramos, são sempre Eles os primeiros a chegar, são sempre Eles que amparam e aconchegam os nossos desesperos. São estes seres humanos de excelência, que a troco de um obrigado, de um abraço, de umas lágrimas de gratidão e muitas vezes de coisa nenhuma, arriscam a vida, ofertam o seu bem-estar, o seu tempo e o seu conforto.

Mas aquelas angústias do pai e da mãe acordaram-me para uma realidade que, estupidamente, nem sequer me tinha passado pela cabeça, e que soma muito mais ao muito que tudo isto já é. É que muitos destas Mulheres e Homens não arriscam apenas a sua vida, arriscam também a vida das mães e dos pais dos seus filhos. Quando arriscam a vida a socorrer os filhos dos outros, nunca sabem se estão a condenar os seus próprios filhos a viver sem mãe ou pai e, mesmo quando tudo corre pelo melhor, o facto é que o tempo assim gasto é dolorosamente negado ao seus filhos, que tanto o queriam receber e a quem eles tanto o queriam dar.

Agonia-me até ao vómito, que permitamos que os Bombeiros tenham de trabalhar sem o melhor equipamento do mundo, que estes e os seus Dirigentes tenham de desperdiçar o seu precioso tempo e saber a pedinchar tostões, meios e equipamentos. Tenho muita vergonha que os sucessivos governantes ignorem olimpicamente a sua experiência, conhecimentos e conselhos, que bem poderiam evitar, ou pelo menos atenuar as terríveis tragédias dos incêndios que já começam a ser “normais”.

Nos últimos 40 anos morreram em Portugal ao nosso serviço 229 Bombeiros. 229 mães, pais filhos, filhas, familiares e amigos perderam os seus entes queridos, quando estes tentavam valer-nos.

Esta é a dádiva maior, que agradecimento nem solidariedade nenhuma poderá alguma vez compensar.

Tenho um imenso orgulho nos meus sobrinhos e que estes vivam sob o lema de “Vida por Vida”. Na pessoa deles, quero dar um imenso abraço de agradecimento, de admiração e de solidariedade a todos os Bombeiros e aos seus Dirigentes. Do fundo do coração lhes peço que não desistam nunca.

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