[Opinião] Guerra contra a indiferença

CRÓNICAS/OPINIÃO João Ferreira

Acordei e fui ao “X” – antigo Twitter -. Deparei-me com um curto vídeo de um homem, pai certamente, ajoelhado no meio do pó e dos destroços do que fora a escola primária de meninas em Minab, no Irão, a limpar o sangue de uma mochila. A escola foi bombardeada com três mísseis lançados pelos EUA/Israel e estima-se que morreram cerca de 180 pessoas, a grande maioria crianças. Abaixo, comentários: “Fake news”, “Foi um míssil do Irão”, e um tipo qualquer a tentar relativizar ao comparar com mortes noutras latitudes. Virei a cara e liguei a televisão. Mudança de cenário, agora assistia a uma entrevista com um economista a explicar que o bloqueio no estreito de Ormuz ia fazer subir o preço do petróleo, do gás, dos alimentos, de tudo, e que era hora de apertar o cinto. Desviei o olhar e fui para o Instagram, onde um sindicato, aproximando-se o dia internacional da mulher, denunciava que as trabalhadoras da grande distribuição, essa que todos os anos bate recordes de lucros, viam negados direitos, tais como a dispensa para amamentação ou a concessão de horários flexíveis, porque não toleram “atrasos na produção”. E nos comentários, novamente, gente a afiançar que “os sindicatos não servem para nada” e só “querem mamar do dinheiro dos trabalhadores”. Desliguei.

Há quem diga que estamos na era do vazio. É esse o título de um livro do filósofo, Gilles Lipovetsky, que descreveu a indiferença pós-moderna como a mutação antropológica silenciosa que reconfigurou a relação do indivíduo consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Ao referir-se a uma deserção social dos valores e instituições, refletida na perda de influência das ideologias, dos partidos políticos e sindicatos, conclui que “é a relação com o Outro que, seguindo a mesma lógica, sucumbe ao processo de desinteresse”. À primeira vista parece que sim, que o vazio tomou conta de tudo, porque os acontecimentos sucedem-se e são varridos para o canto da memória como poeira, desde o leste europeu ao médio-oriente, passando pelas américas, são imagens que entram e saem dos ecrãs sem deixar rasto, laboratórios de sofrimento industrial onde se testa até onde pode ir a nossa capacidade de não sentir. Afinal de contas, a guerra pressupõe sempre uma indiferença organizada. E perante isto quem afirme que só nos resta adaptar e viver numa solidão povoada por breves estímulos, incapazes de mobilização por projetos coletivos que exijam continuidade, disciplina e sacrifício.

Mas não, não é o vazio, é o capitalismo, que entra numa nova “era de destrutividade”, e para tal produz não apenas mercadorias, mas também subjetividades adequadas à sua reprodução sem resistência. O sistema que permite a terraplanagem de cidades e países inteiros, é o mesmo que treina o nosso olhar para ver aquelas vidas como “notas de rodapé” e “dispensáveis”. Que cria uma hierarquia de vidas, em que algumas são dignas de luto e memória, e outras de mera estatística.

Ora, a indiferença não é um destino, nem a ela nos devemos resignar. É uma escolha. E contra essa escolha, há que travar uma guerra real, não metafórica. Ela trava-se todos os dias na recusa em normalizar o inaceitável: o genocídio transmitido em directo, a destruição de países inteiros com a bênção das “democracias ocidentais”, a negação dos direitos às mulheres trabalhadoras, a invisibilidade da maioria. Estamos em guerra contra a indiferença, e essa é uma guerra que merece ser travada.

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