[Reportagem] Retratos de quem vai e de quem vem: Anna Kravtsova

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“Quase bati no carro da frente ao atravessar a ponte da Arrábida”. Anna Kravtsova vinha pela primeira vez ao norte do país. Tinha-se instalado em Portugal em março de 2022, primeiro em Cascais, e seis meses mais tarde na Figueira da Foz onde, para além de ter encontrado a paz que ambicionava, conheceu também aquele que se viria a tornar o seu marido, um músico natural de Santo Tirso. E naquele momento, ao atravessar o rio Douro, a paisagem envolveu-a por completo. “Não estava à espera de toda aquela beleza”.
Anna nasceu na cidade de Makeeva, perto de Donetsk, Ucrânia, localidade da família materna, ainda enquanto província Soviética. Por lá esteve até que aos nove anos de idade toda a família se mudou para Moscovo, para que o pai se pudesse dedicar ao “esforço de uma vida”: o doutoramento ligado à automação da extração mineira. “A ironia”, reconta, está no facto de o “ter concluído em julho de 1991 e de em agosto a União Soviética ter colapsado”.
“Na URSS, com um doutoramento tinha-se a oportunidade de ser promovido para melhores salários e acesso a melhor habitação, mas de um momento para o outro ficamos sem plano”, conta, em conversa com o Entre Margens. Mantiveram-se em Moscovo. A dissolução do império soviético abriu oportunidades nos negócios e a família de engenheiros abriu uma pequena empresa comercial.
Moscovo é uma cidade gigante. Era-o na altura e não parou de crescer desde então. É o “local para se estar” para jovens à procura de boa formação superior e, quem sabe, saltar para o estrangeiro, como fez o irmão, atualmente engenheiro de software em Belgrado.
Apesar de viver rodeada por cálculos e código informático, e até de se ter formado numa escola especializada em física e matemática, acabou por enveredar pelo direito, seguindo o conselho da mãe. Em parte, confessa, ainda se “arrepende” dessa decisão, mas acabou por construir toda a sua atividade profissional na conjugação das duas áreas, aplicando a lei ao mundo digital.
“Enquanto consultora em privacidade e compliance para empresas tecnológicas, estou basicamente a ajudá-las a crescer e a desenvolverem-se. É o caminho do futuro, inevitável, portanto alguém precisa de o fazer”, garante.
A perceção generalizada de que Moscovo é uma cidade fechada e inóspita à atividade comercial não podia estar mais longe da realidade. Sobretudo na viragem do milénio e durante a primeira década do século XXI, a capital russa era um centro nevrálgico para negócios ao mais alto nível. As maiores empresas norte-americanas e europeias tinham lá forte representação. Era o local onde o mundo ocidental se podia encontrar com o oriente e, dessa confluência, surgiam oportunidades e contactos únicos.
Anna Kravtsova entra no mercado de trabalho precisamente neste caldeirão. Entre outras atividades, trabalhava desde 2004 para uma empresa de outsourcing de alto nível que, em 2013, no momento em que foi feita levada à bolsa de Nova Iorque, contava com cerca de 13 mil engenheiros espalhados por toda a europa de leste.
A Rússia antes de 2014 era “diferente”, diz. Até aí, vivia-se um período propício para “fazer dinheiro”. O mercado de trabalho, as cotações das empresas, o volume de negócios e transações, impulsionavam o sentimento de que “tudo estava bem”. “Se a economia cresce e ganhas dinheiro, não estás a pensar em mudar ou em sair”. Mas a partir de determinada altura, o risco passou a ser outro.
“Ninguém sabe se, de um dia para o outro, as poupanças do nosso trabalho continuam a valer alguma coisa ou se simplesmente desaparecem porque um banco vai à falência ou evaporam por outra qualquer razão”, elucida.

Fotos: Yasmine Moradalizadeh

Era tempo de mudar de vida e procurar não só estabilidade, mas também um local onde se sentisse em paz consigo e com o mundo que a rodeia. Ofertas, essas, não faltaram. Suíça, Alemanha, Inglaterra, como muitos compatriotas fizeram naquela época. Enquanto mulher de método e análise, não quis deixar a decisão ao sabor de desejos voláteis. Não. Criou todo um modelo analítico para a ajudar a tomar a decisão.
Em consideração estava não só o valor do seu salário, como também os impostos ou o custo de vida para bens essenciais, numa análise que foi fazendo ao mesmo tempo que se matriculava num mestrado em direito da informática e das comunicações, em Londres, que completava à distância. Até que a pandemia se abateu e, de repente, se viu fechada no seu apartamento em Moscovo, sem um jardim para poder respirar.
Anna já visitou mais de 65 países. É praticante de yoga, com contínuas estadias na Índia para aprender com os mestres ao longo de mais de quinze anos. Tem amigos um pouco por todo o lado, mas até 2021, Portugal nunca lhe tinha passado pelo horizonte. Mas o seu modelo matemático, insistentemente colocava este retângulo à beira-mar plantado no topo dos destinos para uma possível relocalização. E como o trabalho remoto ganhava preponderância, Portugal tornou-se cada vez mais atrativo.
“Quando vim a Portugal pela primeira vez, em outubro de 2021, apaixonei-me. Pela natureza, pelo património. Fui a Sintra e disse uau, que terra mágica. Mas aquilo que mais me chamou a atenção foram as pessoas”, recorda. “Comecei a pensar que seria um lugar onde me sentiria bem. Emigração é uma luta, não importa o teu nível financeiro. Claro que ajuda, mas psicologicamente, é uma carga pesada, porque perdes as tuas raízes e a tua rede. Tens de começar de novo”.
Por essa altura já tinha começado o processo administrativo para se mudar para Portugal, incluindo o visto de residência, sendo que essa visita enquanto turista tinha também como objetivo tratar de abrir uma conta bancária, obter número de contribuinte e um conjunto alargado de papelada para finalizar os procedimentos. O seu visto foi emitido em fevereiro de 2022 e tinha viagem marcada de Moscovo para Lisboa para março. Entre os dois momentos, abrem-se as hostilidades no conflito.
“Fiquei com o meu voo cancelado, tive de arranjar outra forma de cá chegar, e os fundos de uma conta que tinha pensado investir cá ficaram congelados. Foi uma lição em desapego”, desabafa. “Um novo começo”.
Os acontecimentos deixam marcas, sobretudo para quem tem raízes dos dois lados do conflito. Em Portugal, Anna diz que encontrou a paz interior de que precisava e, especialmente a norte, uma região com “pulso para os negócios”.
“Há uma parte da comunidade russa que diz que o Porto é como São Petersburgo e Lisboa como Moscovo. Mas eu digo que não tem comparação. Não é uma cidade de reis ou imperadores. Aqui há respeito pela propriedade e pelos negócios”, argumenta.
Atualmente, vive em Vila do Conde com o marido. Trabalha com uma start-up de privacidade de dados e enquanto consultora. Está a aprender português, aos poucos. Não encontrou um país chauvinista, mesmo depois de contar a sua história e de onde vem. Pelo contrário. Encontrou um país acolhedor e aberto.
Diz que encontrou o “equilíbrio perfeito”. Sente que em Portugal pode conjugar todos os seus interesses. Trabalhar e desenvolver o seu negócio, servir clientes nos quatro cantos do mundo, possivelmente até abrir o seu próprio estúdio de yoga.

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