Vinícius Fonseca sobrevoou o Atlântico pelo sonho do andebol
A presença de atletas brasileiros nas mais diversas modalidades do desporto nacional não é um fenómeno recente. A capacidade de recrutar talento vinda Brasil sustentou durante anos a fio clubes de futebol profissional e continua a fazer-se sentir nos dias que correm pelas modalidades ditas “amadoras” do tecido desportivo português.
Vinícius Fonseca tinha 17 anos quando se mudou para Portugal para jogar andebol no ABC, emblema histórico do panorama nacional. Entre as fazendas de São Bento do Sul e a paisagem urbana de Balneário Camboriú, ambas no estado de Santa Catarina, foi-lhe impossível fugir ao andebol, na infância. Foi, recorda entre sorrisos, uma “jovem promessa”, filho de um ícone da modalidade em território brasileiro. Estava, por isso, destinado a seguir as pisadas do pai.
Só que, quando já adolescente percebeu que o seu percurso estava barrado na equipa onde militava, sem grandes ofertas desportivas naquela zona do Brasil, chegou a um momento de bifurcação da sua vida: ou parava de jogar andebol ou se mudava para a Europa.
“Disse ao meu pai, se for para jogar assim, paro. Ele nunca quis que eu e o meu irmão fôssemos iguais a ele, mas queria que tivéssemos boas carreiras e se, no futuro, aí com trintas, quiséssemos largar, tudo bem. Agora, não naquela fase, com 17 anos”, recorda Vinícius.
A solução Europa começou a ganhar forma. O pai encetou contactos e uns tempos mais tarde chegou a casa com o possível interesse do ABC, em Portugal. Só tinha de fazer um vídeo com lances seus e, como ainda tinha apenas 17 anos, poderia viajar para a Europa ainda enquanto atleta de formação para jogar nos escalões de juvenil, júnior e sénior.
A possibilidade de viajar para o Velho Continente abria-lhe um novo horizonte e entusiasmava-o, mas faltava convencer a mãe. Apesar de já ter concluído o ensino secundário, Vinícius era menor de idade. Só depois de muita conversa (e noites do pai a dormir no sofá), lá conseguiu o sim.
“Vim cheio de medo, triste a chorar”, conta, ao reviver o momento em que se despediu da família para embarcar na viagem transatlântica. “Entrei no autocarro para São Paulo, onde ia apanhar o avião, e quando vi a minha mãe, o meu pai, o meu irmão e a minha irmã a chorar, comecei a chorar também”.
Vinícius cresceu a brincar na terra da fazenda, em São Bento do Sul, onde o futuro lhe parecia capado à possibilidade de ser apenas aquilo que os outros eram. “Queres morar aqui, vais ter de viver como a gente”. Ao mudar-se com a família para Balneário Camboriú, na costa atlântica, o mundo pareceu ganhar outra forma e Portugal era uma oportunidade para traçar o seu destino.
O contacto do pai do lado de cá do Atlântico era o filho de um amigo, que já vivia cá com uma tia e, portanto, permitia-lhe ter alguma retaguarda. Acabaram os dois jovens a viver num apartamento, após o clube ter demonstrado interesse em que Vinícius treinasse e estivesse disponível para os três escalões. Numa primeira fase, com a ajuda monetária dos pais, a tia contratou uma empregada para cozinhar para toda a semana e garantir que se alimentavam decentemente, até que mais tarde o clube aceitou pagar casa e alimentação, primeiro num hostel e depois na residência universitária. Tudo o resto saía do próprio bolso. O clube não pagava mais nada.

O dia a dia vivia-o numa correria imparável. “Acordava, ia para o ginásio que o clube garantia, depois fazia treino sozinho no pavilhão durante uma hora, treinava primeiro com os juvenis, a seguir com os seniores e só mais tarde com os juniores. Acabava às 11 da noite, voltava para casa e repetia o ciclo no a seguir”, revela.
Braga, enquanto cidade universitária, cujo crescimento populacional dos últimos anos teve um grande impulso da comunidade brasileira, surpreendeu Vinícius pelo número de compatriotas a viver, estudar e trabalhar na cidade. Seja pelas ligações universitárias, sejam pelo nível de oferta de emprego, Braga tornou-se num dos polos urbanos com maior atração de brasileiros do país.
Por não encaixar no estereótipo, ser “branquelas” de “olhos claros”, diz que nunca sofreu de qualquer problema de racismo ou xenofobia latente. Confessa, no entanto, que naqueles dias em que vinha do treino, à noite, em chamada com os pais pela rua fora, sentia que havia muitas que atravessavam a rua, ao ouvi-lo falar.
A aventura no ABC acabou por chegar ao fim. Num beco sem saída desportivo, um antigo treinador do emblema bracarense contactou-o para sondar a disponibilidade que teria em mudar-se para o Ginásio de Santo Tirso, na segunda divisão. Vinícius tinha tirado um curso de fisioterapia e massagem e percebeu que seria uma boa oportunidade, para não deixar a prática da modalidade. Só que a pandemia chegou e voltou tudo a parar.
No regresso da atividade, com o desconfinamento progressivo, recebeu um convite para jogar no ISMAE, na primeira divisão, mas para ficar mais perto e não ser obrigado a grandes deslocações, decidiu deixar Braga e mudar-se para Santo Tirso com a namorada que conheceu entretanto. Assentou por cá.
“Vai fazer cinco anos que estou aqui”. Aos 25 anos, vive quase como casado, com a companheira. “Só não têm o papel”, refere, entre sorrisos, descrevendo Santo Tirso como uma cidade “pacata” e “maravilhosa”, “a meio termo de tudo”. “Se conseguir algum dia a possibilidade de comprar uma casa assim, para ter espaço e ficar bem”. Confessa que tem planos para o futuro, ainda no andebol. Para já trabalha como garçon num estabelecimento comercial do centro da cidade. Mas tem outras perspetivas.
Esteve parado esta temporada desportiva devido ao apertar da legislação de imigração em Portugal. Deixou de se conseguir inscrever federativamente usando apenas o passaporte. Como sempre o fizera. E acabou por descobrir que esteve cinco anos ilegal, porque o ABC não concluiu o seu processo como deveria. Hoje, “está tudo certinho”, garante.
O problema do andebol em Portugal não é de qualidade dos jogadores, nem das equipas técnicas. A seleção fala por si, “é muito boa”. O problema é que tirando quatro ou cinco clubes de topo, não é possível fazer uma carreira profissional por cá. Por isso, diz, é preferível jogar na segunda divisão em Espanha, do que primeira divisão portuguesa.
