[Reportagem] Retratos de quem vai e de quem vem: Clemente Sampaio

ATUALIDADE DESTAQUE

Clemente Sampaio deu “o salto” para “fugir à miséria

No dia 15 de novembro de 1968, o Benfica preparava-se para jogar contra o FC Porto, às Antas. Clemente Sampaio, com 17 anos de idade, usou o jogo como desculpa, e lá saiu de casa com “dois pares de calças, três camisolas, uma gabardine e um chouriço no bolso”. Sem mala para evitar suspeitas das suas verdadeiras intenções.

Apesar de ser natural do lugar de Paradela, em Vila das Aves, a sua família mudou-se para Rebordões muito novo. E foi de lá que congeminou o plano para emigrar para França com um amigo de São Tomé de Negrelos. Apanharam um táxi com destino a Chaves, onde se encontrariam com um passador. Pernoitaram para evitar olhares indiscretos e a meio da madrugada meteram pés ao caminho até passarem a fronteira para Espanha, junto a Feces de Abaixo. A partir daquele momento, estavam entregues a si mesmos.

O testemunho de Clemente Sampaio é representativo da vaga de emigração portuguesa da década de 60 para os países do centro da Europa que, no pós-Guerra, se reerguiam da destruição e aproveitavam a fuga de mão de obra da ditadura e da guerra colonial. Sem passaporte, nem autorização, houve uma geração inteira que decidiu arriscar sair do país clandestinamente, sob risco de prisão, para encontrar um futuro melhor.

Lá em casa, era um de oito filhos. A mãe era dona de casa e dava uma mãozinha na agricultura, para trazer milho, arroz e feijão para casa. O pai era padeiro, tinha direito a trazer nove pães para casa, até que adoeceu e foi obrigado a estar cerca de um ano de cama. Clemente trabalhava desde os 12 anos como serralheiro e tinha a consciência das necessidades bem presente.

“O que me fez sair foi ver essa miséria lá casa”, revela. “Cheguei a ver a minha mãe a chorar no fundo do quintal, no momento em que estava com medo, porque não tinha meios e o meu pai estava doente”.

Depois de “dar o salto” para o lado espanhol da fronteira, a dupla apanhou o autocarro para Ourense e de seguida o comboio até perto de território francês. O plano era sair em Pamplona, mas só quando lá chegaram se aperceberam que ainda estavam longe da fronteira. Continuaram até Hendaye, mas foram apanhados pelo revisor que os obrigou a pagar a diferença do bilhete, um rombo inesperado no curto orçamento que dispunham.

Ali, juntaram-se aos trabalhadores fronteiriços. Chovia. Agarraram-se um ao outro debaixo do guarda-chuva para passarem despercebidos. A certa altura, ouviram botas militares, o que lhes arrepiou a pele, mas não olharam para trás. Consigo, já do lado de lá, levava duas direções possíveis, num país sobre o qual só ouvia falar à distância: um amigo, em Bordéus, e a morada de um tio que não conhecia, nos arredores de Paris.

Fotos: Yasmine Moradalizadeh

A proximidade geográfica levou-os à cidade a sudoeste do pentágono gaulês. Pediram boleia à face da estrada, mas sabiam que, quem olhasse, sabia ao que vinham. O dinheiro não chegava, mas conseguiram convencer o taxista de um Citroen “boca de sapo” a levá-los até ao destino sob o pretexto que iam ver uma tia. Quando chegaram, a senhora reconheceu-o como filho dos vizinhos, em Rebordões. Pagou o táxi e quando o filho chegou do trabalho, “passou-lhe a língua”. A Clemente e ao seu companheiro de odisseia, disse apenas que não podiam ficar. Banho, refeição quente, cama para dormir e, no dia seguinte o bilhete de comboio até Paris, mais cem francos a cada um que mais tarde acabaria por devolver.

No ferver da aventura, o único pensamento era “seguir em frente”. A barreira da língua, a falta de conhecimento de como navegar numa cidade tão grande como Paris, nada disso era barreira para quem tinha um objetivo concreto. O tio vivia em Saint-Denis que, à época, acomodava grandes bairros de imigrantes que chegavam à cidade clandestinamente. Os bidonville que se formavam, desordenados, serviam como oásis de lata para quem não tinha mais sítio para onde ir.

Era num desses bairros de lata que o tio vivia, num largo com mais quatro ou cinco barracas. Trabalhava por turnos, numa fábrica, e não estava em casa. Uma outra senhora portuguesa avistou-os. Conhecia o tio e convidou-os a ficar em casa até que ele chegasse.
“Deu-nos café, bolachas, e eu só lhe pedi uma bacia com água quente para lavar os pés. Estava estoirado”, recorda Clemente Sampaio. O tio chegou quando se preparava para comer. “Ele não me conhecia a mim, nem eu a ele”, mas foi recebido de braços abertos. A odisseia de três dias chegava finalmente ao fim.

Por aqueles tempos, arranjar emprego era fácil. Com as convulsões sociais sentidas em França poucos meses antes, os imigrantes eram vistos como fonte segura de trabalho para fazer face às necessidades. Logo no dia seguinte, disseram-lhe que havia uma empresa de calcetar estradas a precisar de pessoa. Nem pestanejou. Agarrou-se à oportunidade. Mas ao fim de três meses de contrato, empregou-se uma fábrica metalúrgica que lhe possibilitou demonstrar as suas capacidades enquanto torneiro.

Foi, primeiramente, à experiência, mas depois de lhe serem reconhecidas as competências, conseguiu estabilizar a sua vida, através de um trabalho que o valorizava. O espírito curioso e irrequieto de Clemente Sampaio conduziram-no à procura de sempre mais e melhor. Inscreveu-se numa escola, à noite, para aprender a falar francês e quando viu num jornal o anúncio de uma fábrica de aviação à procura de torneiros, não hesitou e acabou por lá trabalhar durante mais de trinta anos. “Entrei com a qualificação mais baixa e saí com a qualificação profissional mais elevada”.

Em França, assegura, sempre foi tratado com respeito. “Éramos considerados classe baixa, isso, sim, mas eles precisavam de nós. Não senti racismo, nem repulsa, nada”. Na bidonville onde se instalaram portugueses, marroquinos, argelinos, espanhóis, enfim, toda a gente partilhava uma experiência comum e se entreajudava mutuamente.

Quando conseguiu sair de lá, fê-lo sem segundos pensamentos. O objetivo era conseguir arranjar um sítio para poder viver com as irmãs mais novas que, entretanto, se mudaram também para França. Foi emigrante até 2015, ano em que voltou definitivamente a Portugal. Casou em 1973, com a namorada de cá e quando regressou a França, já o fez de forma legal.

Nem um ano depois, dá-se a Revolução. A notícia chegou pela rádio e espalhou-se como fogo pela comunidade portuguesa, onde muitos rapidamente começaram a fazer preparativos para regressar.

“Ninguém sabia muito bem o que iria acontecer. Mistura de medo com alegria”, lembra. “Marcou-me muito. Saltei de alegria chorei. Quando saí do país não tinha muita consciência política, mas naquele momento já tinha uma perspetiva de fora, mais avançada, sobre os reais problemas”.

Ao fim de mais de cinquenta anos desde o momento em que decidiu abandonar Portugal, Clemente Sampaio não aceita que digam que emigrou para “fugir à guerra”. Sim, a guerra colonial era um fator que pesava. Mas quando reflete sobre aquele momento no tempo, responde sem hesitar: “fugi para escapar à miséria”.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

11 − 1 =