[Reportagem] “Só a ignorância pode construir um identidade fechada em si própria”

ATUALIDADE DESTAQUE

Durante três dias, festival Palheta Bendita foi remédio contra o preconceito, mergulhando o muito público presente em Geão num caldo multicultural para demonstrar diferenças e fortalecer laços entre comunidades. A resposta foi “muito positiva”.

A energia daquele cenário sentia-se à flor da pele. O céu, já para lá do crepúsculo, ainda apresentava uma faixa alaranjada no horizonte e no palco os Tarwa N-Tiniri atiravam-se aos primeiros grooves intoxicantes do seu espetáculo. É desert blues, define a internet, mas no seio do verdejante parque de Geão, aridez era coisa que não fazia parte do menu. Havia sim entusiasmo, verve e comunhão com a grande comunidade marroquina que não quis perder o concerto de um dos seus.

Na fila da frente, dançava-se e entoavam-se todas as canções a plenos pulmões entre pessoas envoltas na bandeira marroquina, mas sobretudo uma imensidão de bandeiras Berbere. Os Tarwa N-Tiniri, nome que traduzido literalmente lê-se “filhos do deserto”, são totalmente compostos por elementos da comunidade berbere, daí que a questão identitária estivesse bem vincada.

Este talvez seja o cartão de visita do Palheta Bendita. Depois de no ano transato, o festival ter dado um salto para o desconhecido, alterando data, conceito e público alvo, transformando-se num festival de músicas do mundo, no verão, ao ar livre, este ano a organização quis cimentá-lo com uma referência. Percebeu o impulso daquilo que funcionou e, com outra segurança financeira, deu um salto de consolidação.

Este “não é só mais um festival”, explicava ao Entre Margens, Napoleão Ribeiro, um dos rostos organização. “Tem uma identidade própria” forjada ao longo de 16 edições onde a música tradicional e a feira de construtores de instrumentos funcionavam como núcleo duro. Essa linhagem mantém-se, mas agora incluída num horizonte mais expansivo: “uma ponte entre os povos do mundo”.

Multiculturalidade para reforçar laços na comunidade

Era difícil não comparar o cenário do concerto dos Tarwa N-Tiniri em comunhão com a comunidade marroquina com a experiência vivida o ano passado durante o espetáculo do iraniano Saeid Shanbehzadeh. De facto, o público aparece quando se programa com um pensamento estruturado.

“Este concerto foi pensado para a comunidade marroquina que atualmente vive em Santo Tirso e fico contente que tenham aderido”, explica Napoleão Ribeiro, trançando as semelhanças com os concertos realizados pela diáspora portuguesa e da sua importância para as comunidades. “Faz-me lembrar o que o meu pai viveu em França, enquanto emigrante. Revejo-me nestas pessoas, porque se tenho tudo aquilo a que tive direito na minha vida, deve-se a uma situação similar”. 

Santo Tirso é uma cidade e um concelho em mudança, numa região também ela em mudança profunda. É cada vez mais uma cidade de imigrantes porque, convém não esquecer, é uma cidade industrial que precisa e vai continuar a precisar de imigrantes. E se assim é, não é possível “fazer como a avestruz” e simplesmente “enfiar a cabeça na areia”.

“Temos é que saber dialogar com as comunidades que recebemos, com as comunidades com quem trabalhamos todos os dias e tentar perceber o outro”, reforça. “Não vale a pena tentar regredir e não podemos desassociar a música da política. Temos de saber integrar e não criar preconceito”.

Foi assim com a comunidade marroquina, mas o Palheta abre portas para outras geografias e sociologias, seja através dos concertos, seja na feira de construtores de instrumentos que este ano contou com representantes provenientes da Eslovénia, Áustria e Galiza.

“Só a ignorância pode construir uma identidade fechada sobre si própria. Todas as identidades de todos os povos se relacionam. Se estivermos atentos, quem falar com as pessoas, entende que todos os povos têm muito mais em comum do que têm de diferente”, argumentou Napoleão ribeiro.

Sempre de Portugal para o mundo, de dentro para fora. E basta ver o ambiente festivo criado no concerto dos portugueses Retimbrar para perceber que a essência da cultura nacional está viva e recomenda-se.

 “Queremos aproximar o festival da localidade, às pessoas, sem esquecer o mundo”, sublinhou, focando um projeto “muito bonito” levado a cabo pelo Crassh Duo_Circus com a CAID (Coopertativa de Apoio à Integração do Deficiente” e apresentado em palco no festival.

O Palheta é um pequeno tesouro que ainda passa ao lado da grande massa populacional. Mas a julgar pelo cenário vivido por quem passou por Geão no passado fim de semana, a pergunta que se impõe será: por quanto tempo mais?

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