[Opinião] 50 Anos do 25 de Abril em Santo Tirso

Ana Isabel Silva CRÓNICAS/OPINIÃO

Todos os anos a Câmara de Santo Tirso organiza uma sessão solene sobre o 25 de Abril onde todos os grupos representados na Assembleia Municipal fazem um discurso. É cada vez mais fácil chegar a todos e todas pela internet. No entanto, o executivo continua sem realizar a transmissão destas cerimónias, restringindo a comunicação de todas as vozes políticas tirsenses. Assim deixo algumas das minhas palavras, nesta comemoração tão especial, dos 50 anos de democracia e liberdade.

“50 anos de liberdade. Mas o que significa liberdade?

Tenho 29 anos. Posso votar há 11 anos. Houve gente que lutou, esteve presa, foi torturada, morreu, para que eu pudesse votar. Para que eu pudesse estar, hoje, aqui. Para que uma mulher pudesse ocupar cargos de poder e ter uma voz.

Foi também há 50 anos que foi criado o poder local eleito por todos e todas. Sejam homens, mulheres, ricos, pobres, patrões ou operários. A nós, eleitos, cabe-nos a responsabilidade acrescida de garantir esta democracia, que não há silenciamento, e que ouvimos todas as forças democráticas. Todas, sem exceção, sem recados na caderneta.

Mas podermos todas votar, é isso a liberdade?

Depois da muita igualdade formal que nos deu Abril, achava-se que, com o tempo, a cultura e as mentalidades mudariam. Que com o tempo “isto lá vai”. Eu sou da geração do “isto lá vai”. E já cá estamos. Mas será que estamos em liberdade? É que liberdade não é desigualdade:

Temos vindo a assumir como normal esta desigualdade gigante e se está a aprofundar. Temos vindo a assumir como normal que enquanto uns têm dinheiro de sobra suficiente para comprar um Mercedes de milhões, tantos outros contem o dinheiro ao fim do mês para verem se dá para arranjarem o seu próprio carro. Termos tanto, enquanto os que trabalham para nós não conseguem realizar os sonhos que desejam, não é igualdade. Então não é liberdade

Achamos sempre que a política não é para nós, que não percebemos nada do que é discutido, que não fazemos a diferença. Mas a política entra-nos vida adentro.

Porque liberdade é não ter medo de não termos o transporte que precisamos, de não ter medo do futuro e das alterações climáticas, de não ter medo da conta da luz por ligarmos o aquecedor, medo do saneamento nunca mais chegar a nossa casa, é não ter medo de não termos tempo para viver, de não termos creches ou escolas boas para os nossos filhos, é não ter medo de não ser capaz de ter estabilidade no emprego ou não ter medo de não conseguir pagar a casa.

A minha geração e as que vem a seguir nunca conheceram outra realidade que não crises económicas. Mas, como dizia José Mário Branco “quero ser feliz, porra!”. E não digam que somos a geração habituada a ter tudo como garantido. Somos a geração que não tem nada como garantido. Até da luta contra o fascismo estaríamos poupados mas o presente mostra-nos o tanto que ainda teremos de fazer.

Termino com três versos de um poema, de Alice Neto de Sousa:

“Dá-me um cravo na boca para recomeçar,
Que mesmo com os corações desafinados,
Vamos marchar, marchar, marchar.”
25 de abril sempre, fascismo nunca mais!”

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