[Opinião] Portugal em Gaza

Ana Isabel Silva CRÓNICAS/OPINIÃO

Num encontro com Nabil Abuznaid, chefe da missão diplomática da Autoridade Palestiniana em Portugal, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, expressou: “Desta vez foram vocês que começaram.” Essas palavras, ditas pelo Presidente, não apenas envergonharam todos os portugueses, mas também transmitiram uma ideia política errada e perigosa. Marcelo Rebelo de Sousa, sabe que o conflito não teve início em 7 de outubro. Ele sabe que o que está a acontecer em Gaza com o povo palestiniano é um extermínio e que é Israel a potência ocupante. Além disso, ele sabe que Israel tem minado qualquer possibilidade de uma solução de dois estados. No entanto, o Presidente parece ter abdicado de promover a paz e a justiça. Isso é motivo de vergonha para todos nós.

Mais de setecentos académicos de todo o mundo, especialistas em estudos de genocídio e direito internacional, já lançaram o alerta para a possibilidade de as forças israelitas estarem a “cometer um crime de genocídio contra os palestinianos na Faixa de Gaza.”

É essencial perceber que o Hamas não representa o povo palestiniano, em nenhuma circunstância. Como Presidente da República, é imperativo que Marcelo Rebelo de Sousa tenha essa consciência. Se o Hamas não representa o povo palestiniano, como pode esse povo ser responsável pelo genocídio que está a ocorrer? Além disso, na manifestação pró-Palestina que Marcelo Rebelo de Sousa participou, ele classificou o Hamas como um grupo terrorista. A questão que se coloca é: como um grupo terrorista pode representar um povo e justificar o genocídio que estão a enfrentar? Assim, não foram os palestinianos que deram início a este conflito. O governo do Estado de Israel considera legítimo punir todos os palestinianos pelos atos de uma organização terrorista, e as palavras de Marcelo refletem esse raciocínio. Embora Portugal tenha influência limitada na política internacional, as palavras do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa têm impacto. Elas podem não alterar significativamente o curso deste genocídio, mas, ainda assim, envergonham a nação.

No entanto, não foram apenas as palavras de Marcelo que nos envergonharam. Quando a Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, e a Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, foram até Israel e tiraram uma fotografia de mãos dadas com o seu presidente, ao mesmo tempo em que este estado iniciava o cerco à Faixa de Gaza e o processo de genocídio, ela defendeu o direito de Israel de se defender dos ataques do Hamas. Altos representantes da Comissão Europeia deram, assim, carta branca à aceleração e legitimidade de um crime de guerra em Gaza.

Ursula Von der Leyen tem sido incapaz de intervir na tragédia palestiniana que se desenrola há décadas, em total impunidade. Enquanto ela luta por sua sobrevivência política nas próximas eleições europeias, os palestinianos lutam por suas vidas, numa altura em que o povo português e de outros países sai às ruas, em massa, em total solidariedade com esse povo. Apenas falta que os governos ouçam o seu povo. Comecemos por Portugal?

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