[Entrevista – Pedro Pereira] “A justiça está do nosso lado e acabará por nos dar razão”

ATUALIDADE DESPORTO DESTAQUE

A meio do mandato, Pedro Pereira, presidente do Clube Desportivo das Aves, fala da luta em tribunal contra os castigos aplicados pela FIFA, do protocolo para o futebol profissional e da restruturação financeira do clube que permite alavancar o futuro.

No espaço de apenas um ano, tudo mudou. Pedro Pereira era somente mais um “sócio anónimo” do Clube Desportivo das Aves até ao momento decidiu avançar com uma candidatura à presidência do clube do coração. A situação era (e continua a ser) delicada, exigindo tomadas de decisão concretas para resolver problemas de fundo. Num estilo discreto, é isso que tem feito.

Em entrevista ao Entre Margens, o presidente da direção explica a batalha legal contra os “castigos injustos” da FIFA, o protocolo assinado com a atual AVS Futebol SAD, a necessária restruturação financeira do clube e o futuro onde o ecletismo é palavra chave.

Foi eleito praticamente há um ano, o que significa que estamos a meio do mandato. Sentiu durante este período a responsabilidade que tem sobre os ombros?

Desde do dia um. É uma grande responsabilidade porque é um grande clube, um clube com história e com massa crítica. Responsabilidade, essa, que advém também dos problemas complicados que enfrentamos.

No momento eleitoral do ano passado, o clube vivia um impasse diretivo, o que o levou a candidatar-se numa situação tão delicada?

Eram precisos ser dados passos efetivos para os problemas que o Aves tinha que enfrentar e achei que a minha equipa podia ter algumas ideias interessantes e capacidade para continuar a resolvê-los.

Que problemas eram esses que tinha observado e depois encontrou?

O castigo da FIFA, na prática, é um castigo que impede o futebol de atuar porque se desenvolve ad eternum. Se o castigo se mantém para sempre, acaba com a modalidade.

Aqui tínhamos duas formas de atacar. Primeiro, contestar o castigo, porque achamos que a justiça está do nosso lado e acabará por nos dar razão. Por outro, resolver o problema do imediato. E neste caso, ou suspendíamos a modalidade até que conseguíssemos ter uma solução na justiça, algo que pode demorar dez anos, ou então, encontrar uma solução como esta, em que fizemos uma parceria com uma entidade externa para tomar conta da modalidade por um período de tempo e nos permite respirar na frente jurídica.

A aplicação por parte da FIFA do impedimento de inscrição de jogadores ao CD Aves 1930, considerando-o “sucessor desportivo” da SAD, é na prática fatal. Como é que se encara um problema desta magnitude?

Quando esta direção entrou, entregamos dois recursos ao Tribunal Arbitral do Desporto (TAD). Recursos esses que, mesmo não nos dando razão, acabaram por nos dar armas para continuar a argumentação jurídica.

Basicamente, o TAD disse que não decidia porque não havia processo. Se não havia processo legalmente levantado, não há nada para decidir. Ora, não nos dando razão porque não levanta a sanção, por outro lado, dá-nos argumentos para seguidamente podermos afirmar que o próprio TAD diz que não há qualquer processo contra o Clube Desportivo das Aves e o Clube Desportivo das Aves 1930. O passo seguinte será recorrer aos tribunais comuns.

O processo de insolvência da antiga da SAD, pode ajudar ou até criar um problema diferente? Há algum risco para o património do CD Aves?

A insolvência da antiga SAD está decretada. A extinção é que ainda não. E infelizmente, não deverá ser para breve. O gestor judicial continua a procurar defender o património da antiga SAD com pequenas dívidas relativas essencialmente a direitos de formação de jogadores para distribuir pela massa falida.

A extinção da SAD podia libertar-nos das responsabilidades que algumas entidades atribuem ao clube decorrentes de ter 10% da SAD: sejam os castigos FIFA, seja em termos de Segurança Social que procura atribuir ao clube uma dívida de 600 mil euros, algo que contestamos.

Quando e como surgiu a possibilidade da mudança da antiga SAD do Vilafranquense para Vila das Aves?

Quando entramos em funções, tínhamos que rapidamente apresentar aos sócios soluções para o problema do futebol e sabíamos que a SAD do Vilafranquense estava interessada em fechar o capítulo em Vila Franca de Xira e procurar outro caminho. Coube-nos apresentar os nossos argumentos e as vantagens que teriam em fazer esta parceria com o Clube Desportivo das Aves.

O que tentaram salvaguardar neste processo?

Tínhamos algumas linhas vermelhas que nunca estaríamos dispostos a negociar. Um, o património é do clube, ponto final. Nunca poderia haver transmissão de património, nomeadamente o Estádio e o Complexo Desportivo. Dois, a marca Clube Desportivo das Aves é do clube e também é inegociável. Terceiro, a não existência de participações cruzadas entre sociedades, facto que nos trouxe grandes problemas no passado. A partir daqui estávamos abertos a negociar e a chegar a um bom entendimento.

No fundo, a relação que existe entre a atual AVS Futebol SAD e o Clube Desportivo das Aves acaba por ser entre senhorio e arrendatário.

É uma das faces da moeda. Há uma ralação de senhorio e arrendatário, mas depois há todo o protocolo de parceria desportiva. Era absolutamente crucial permitir que os miúdos voltassem a fazer desporto. Se no protocolo, a face mais visível é a equipa de futebol profissional, tínhamos toda a formação gravemente afetada pela penalização da FIFA, mais uma vez de forma injusta. O acordo que fizemos com esta nova SAD permite que toda a formação possa voltar a abrir inscrições e possivelmente voltar à dimensão de outros tempos.

Parecem, no entanto, existir algumas dúvidas entre os sócios sobre a possibilidade de o clube poder ou não inscrever os escalões mais jovens.

No protocolo está contemplada essa possibilidade quando se reunirem todos os requisitos, nomeadamente jurídicos. Neste momento, não estão. A FIFA recentemente lançou uma informação para que em caso de castigo a formação não seja afetada. O problema é que no Aves já tinha afetado. Tivemos o cuidado de prever essa possibilidade no protocolo, porque mal exista essa oportunidade, naturalmente os sócios tomarão essa decisão.

Como é que avalia a presença da AVS Futebol SAD nestes ainda poucos meses desde que o protocolo está em vigor?

As conclusões a tirar até ao momento são positivas. Enquanto presidente do clube, tenho que exigir que o protocolo seja integralmente respeitado. E tem-no sido.  A SAD tem investido no património do clube e até na própria vila.

Só no Estádio estarão já investidos cerca de 300 mil euros pela SAD: todos os balneários foram revistos, fez-se um novo ginásio, resolveram-se uma série de problemas estruturais, melhoria dos camarotes e da sala de receção de convidados. Em breve, o complexo também terá um novo ginásio de apoio dos escalões de formação. As obras são visíveis e há uma série delas ainda a fazer, incluindo, como está protocolado, um museu digno para o clube, que era um dos meus objetivos do mandato.

Naturalmente, há sempre pequenos acertos que ainda não estão definidos, mas acreditamos que com diálogo e reflexão se limam algumas arestas. Uma delas é o preço dos bilhetes de sócio para a entrada nos jogos em casa da equipa sénior de futebol. Alguns sócios têm criticado e temos de concordar. Temos apelado à SAD para que reflita e reveja esta situação. Não podemos esquecer que esta é uma zona do país muito fustigada pelas últimas crises, as famílias viram o seu rendimento diminuído e fazem contas à vida. Até comparando com outros clubes aqui à volta, alguns até da 1ª liga, quase todos têm preços para sócio mais baixos.

O futsal vai agora passar a ser a modalidade bandeira do CD Aves. Que trabalho está a ser efetuado para a alavancar enquanto protagonista?

Independentemente dos problemas, queremos fazer crescer o clube em termos ecléticos. Para além de salvar o futebol de formação, achamos que há margem para fortalecer o que já temos: o futsal masculino e feminino.

Não esquecer que também aqui tivemos de começar do zero depois da aplicação do injusto castigo da FIFA. Estamos a estudar a melhor forma jurídica de sermos restituídos. Mas começando de novo, as dificuldades foram muito maiores.

A situação financeira não permitiu que o clube desse todo o apoio que deveria às modalidades, o que entronca com o último dos grandes objetivos deste mandato: restruturar financeiramente o clube.

Quando fala em restruturação, refere-se exatamente a quê?

É muito importante equilibrar despesas e receitas. Quando entramos havia um grande desequilíbrio entre despesas e receitas, cerca de trinta mil euros todos os meses, o que não era comportável para um clube apenas com modalidades amadoras, onde as receitas são diminutas. Tivemos que tomar medidas.

Isso traduz-se em quê? Que medidas foram essas?

Há dois fatores importantes. O primeiro passou por cortar alguns custos fixos que não eram comportáveis para o nível atual de atividade do CD Aves, para controlar os gastos. Por outro, a existência do protocolo fez com uma parte das despesas deixasse de ser responsabilidade do clube para ser responsabilidade da SAD, nomeadamente o Estádio, a sua manutenção e as despesas com o futebol. Quando entramos, o clube tinha sete funcionários. Não é possível. Fomos reduzindo, encontrando soluções parciais e neste momento o clube tem dois funcionários, o nível que pode suportar. Doi sempre muito. Ouvimos críticas, mas era importante encontrar este equilíbrio para que o clube possa sobreviver no futuro.

Estamos com a restruturação praticamente concluída. Temos neste momento as receitas iguais às despesas. O subsídio da Câmara Municipal não se alterou. Era de 80 mil euros e continua a ser, porque com a criação do basquetebol não vamos diminuir a atividade desportiva da formação. Temos é um lastro bastante complicado de dívidas de curto prazo que temos algumas dificuldades em cumprir.

Como perspetiva o futuro a curto prazo?

Queria lembrar que entramos há menos de doze meses. Por vezes, lançam-se sementes e não se colhem logo os frutos. Humildemente, penso que já fizemos muito neste primeiro ano, porque a situação obrigava a decisões urgentes. Porém, se o clube tem 93 anos, temos de trabalhar para que consiga chegar a mais 93. Isso implica não só medidas imediatas, mas também medidas a longo prazo. Se os frutos não se colherem no nosso mandato, ficam para as direções seguintes.

Já pensou se pretende recandidatar-se no próximo ato eleitoral?

Sinceramente, ainda não refleti sobre isso. Um clube não é uma pessoa. Tentar centralizar numa pessoa todos os defeitos ou todas as virtudes de um clube é um erro. Este é um trabalho de equipa. Quando se centraliza tudo numa pessoa, parece que há um mágico a resolver as coisas. Eu não vejo isto assim.

O clube é dos sócios e não se faz nada sem a sua ajuda: sem patrocínios, sem quotizações em dia, sem ajuda das suas atividades profissionais. Se todos ajudarem um bocadinho é possível.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

one × 1 =