[Editorial] Há muito por onde piorar

CRÓNICAS/OPINIÃO Diretor

“Temos de ficar satisfeitos e gratos com o melhor do que nada?”. A pergunta é de António Barreto, em artigo recente no Público, no qual escalpeliza alguns dos problemas que afligem o país e a comunicação social vai revelando: saúde, habitação, educação, justiça… A crueza do texto revela com que uma revolta interior sobre a incapacidade quase genética que demonstramos, como nação e através daqueles que elegemos, de prever, de agir em tempo útil e de preparar recursos…

Podia ser pior, é a forma típica de como reagimos perante as situações que acabam por frustrar expetativas criadas. E vamos acumulando desilusões mas acomodando o pensamento com a resignação de quem acabará por habituar-se a tudo. Importa, por isso, usar os meios disponíveis para combater esta tendência para a inação, para que, através do debate livre e democrático, se possa reforçar a intervenção na governação através da escolha criteriosa e informada das melhores opções possíveis. Informação de qualidade, precisa-se.

A nível global, vivem-se tempos difíceis. Os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”(ODS)  das Nações Unidas, que por terem sido definidos em 2015 como “agenda 2020”, estão a meio do seu período de execução, sofreram duros revezes nos tempos mais recentes. O objetivo de combater as alterações climáticas poderá ser o menos conseguido, como se tem visto pelas consequências catastróficas dos furacões, das cheias e dos incêndios em muitos países de vários continentes. O objetivo “Paz e Justiça” foi esquecido por países poderosos cuja ação está nos antípodas do ideal de paz comprometendo outros objetivos. Erradicar a pobreza e acabar com a fome, os dois primeiros entre os 17 objetivos da Agenda 2030, encontram mais dificuldades agora, a nível global, por efeito da guerra e das catástrofes ocorridas. O objetivo relacionado com a igualdade de género pode ter tido algum desenvolvimento nalguns países mas as mudanças políticas em países como o Afeganistão representam um enorme retrocesso, com a proibição das raparigas terem acesso às escolas. Pode facilmente encontrar-se outros exemplos idênticos em todos os objetivos.

António Guterres, no discurso de abertura da Cimeira dos ODS, realizado esta semana, afirmou que apenas 15% das metas estão no caminho certo e que está a ser revertido o progresso de muitas delas e que, em vez de “não deixar ninguém para trás”, se corre o risco de deixar para trás os próprios objetivos de desenvolvimento.

E propôs seis áreas específicas de intervenção urgente: agir em relação à fome, acelerar a transição para as energias renováveis, disseminar amplamente as oportunidades e os benefícios da transição digital, melhorar a qualidade dos sistemas de educação, assegurar trabalho decente e proteção social para todos e pôr fim à tripla crise global de mudança climática, poluição e perda de biodiversidade. São muito boas intenções, propostas perante um auditório repleto de chefes de estado e de governo, na véspera da Assembleia Geral das Nações Unidas.

É melhor do que nada. Claro que o ideal seria que as Nações Unidas, cumprindo o seu propósito fundador, fossem capazes de evitar a guerra, de acabar com as guerras.

O pior de tudo é que há muito por onde piorar.

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