[Crónica] O concelho continua a precisar de uma casa de espetáculos

CRÓNICAS/OPINIÃO Hugo Rajão

Tenho por hábito utilizar este espaço para comentar a política num plano macro. Raramente falo da política autárquica. Abri, no entanto, uma exceção, para falar da política cultural do concelho. Numa crónica escrita há uns meses, alerto para a necessidade de Santo Tirso dispor de uma casa de espetáculos, da qual carece. Não vale a pena repetir os vários argumentos que elaborei em defesa desta tese.

Podemos constatar apenas o facto de a situação não se ter alterado e de não haver indícios que algo nesse sentido aconteça no futuro. O objetivo de construir uma casa da cultura com programação regular simplesmente desapareceu da agenda do executivo municipal.

O estado comatoso da política cultural do concelho conduz a situações, no mínimo, kafkianas. Dinis Leal Machado, natural do concelho, realizou o documentário “A Vida Dura Muito Pouco”, sobre a vida de José Pinhal. O filme foi amplamente aclamado a nível nacional, sendo um dos fatores responsáveis pelo “fenómeno José Pinhal” junto das gerações mais jovens. O mesmo encontra-se disponível na plataforma de streaming Filmin. No entanto, o filme não teve nenhuma exibição pública no concelho (houve um bar que o exibiu). Nicole Noia, também do concelho, viu o seu filme “Mulher da Minha Gente” selecionado para o Indie Lisboa. Não foi, contudo, exibido em Santo Tirso. Este caso para mim ainda é mais grave, uma vez que se trata de um documentário sobre as mulheres operárias da indústria têxtil do Vale do Ave.

Não é uma questão partidária. A menos que a não exibição tenha partido de uma opção editorial dos próprios autores, o que eu desconheço, como é que um elemento do executivo municipal conseguiria explicar episódios como estes ao Ministro da Cultura, do mesmo partido, sem se envergonhar?

Em bom da verdade, Santo Tirso dispõe de um centro cultural, situado em Vila das Aves. Podemos discutir se a sede do concelho deve ou não descurar possuir uma sala de espetáculos em nome da descentralização dos serviços. Podemos debater a capacidade do centro cultural de Vila das Aves para determinados eventos. Estas questões só fazem sentido caso este centro cultural tivesse programação regular. Não tem, e já não tinha antes das obras a que se encontra sujeito. Em abril acolheu o festival sonoridades. É uma iniciativa excelente e um bom exemplo do que deveria ser repetido mais vezes no concelho.

Não obstante, infelizmente o centro cultural de Vila das Aves não dispõe de um serviço de venda online de bilhetes, com mapa da sala (tem serviço multibanco?). É algo impensável em Famalicão, Guimarães ou Braga (só para citar os vizinhos). É o mínimo dos mínimos em 2023.

Deem lá bom uso à receita dos parquímetros! Talvez seja preciso iniciar um movimento cívico pela construção de uma casa da cultura.

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