[Opinião] Encenação da realidade social e política

CRÓNICAS/OPINIÃO João Ferreira

No passado dia 28 de abril, o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, participou numa ação de contacto com trabalhadores em empresas de laboração contínua, nas quais se trabalha em regime por turnos. São cerca de 835 mil trabalhadores em Portugal a trabalhar por turnos, mais de metade mulheres, quando em 2009 eram menos de 500 mil. Do mesmo modo, o número de trabalhadores a fazer horário noturno aproximou-se do meio milhão. O trabalho por turnos e noturno implica, pela sua própria natureza, um conjunto alargado e variado de riscos para a saúde física, psíquica, familiar e social: riscos de perturbações de sono, irritabilidade, agressividade, esgotamentos, fadiga crónica, tendências depressivas, stress. Além disso, um excesso de risco de 30 a 50% de sofrerem de doenças cardiovasculares, relativamente aos trabalhadores com horário normal. Nesse sentido, o secretário-geral do PCP procurou alertar para essa realidade que afeta mais de um milhão e meio de pessoas (trabalhadores e suas famílias), anunciando, ainda, a apresentação de um projeto-lei para assegurar melhores condições laborais (fixação de subsídio de turno e direito a uma antecipação da idade de reforma), e limitar esse trabalho às situações que fossem, técnica e socialmente justificadas.

Porém, os jornalistas que acompanharam o encontro, decidiram ignorar por completo o tema central ali trazido. Por sua vez, mergulharam nas novelas do momento, amplamente discutidas pelos comentadores de serviço, centrando as perguntas e preocupações na conversa informal e insignificante entre Augusto Santos Silva, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa ou na decisão de exclusão do CH das delegações das visitas a parlamentos estrangeiros. Não obstante as tentativas de Paulo Raimundo para que a atenção fosse canalizada para a instabilidade e insegurança dos trabalhadores por turnos e noturnos, insistiram na discussão da intriga política.  

Este caso reflete fielmente o panorama atual dos media de massa, especialmente a padronização da informação e a sua submissão crescente às lógicas mercantis da informação-espetáculo. A obsessão com as audiências e com a concorrência faz com que fait-divers, coscuvilhices, falsas controvérsias monopolizem o espaço mediático, enquanto os problemas concretos da maioria da população, especialmente da mais desfavorecida, são relegados para último plano. Daí que quem recorra habitualmente a manobras provocatórias seja recompensado com a difusão “ad nauseam” da sua mensagem, muito para lá da sua efetiva representatividade, enquanto quem procura intervir além da espuma dos dias vê a sua voz comprimida.  

Na comunicação política mediática, mais do que aquilo que se diz, o que conta é o que fica por dizer. Assim, ao silenciarem os problemas de centenas de milhares de pessoas, em detrimento de horas infindáveis de opinião e comentários sobre assuntos estéreis, sem qualquer impacto nas suas vidas, os media desvirtuam a realidade social e política existente, deformando-a continuamente. Com efeito, não é de admirar a sensação crescente, partilhada pela grande maioria, de que os fenómenos políticos e de comunicação em massa estão a transformar-se em mera encenação, desligada das suas vidas. 

Para um regime democrático é essencial uma comunicação social pluralista e responsável, porque ela é essencial ao conhecimento das realidades, à discussão e tomada de decisões coletivas sobre as nossas vidas. Ou seja, o contrário do que acontece atualmente. Este é um desafio que, além do mais, os jornalistas também devem assumir.

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