[Crónica] O Semáforo da Arquitetura

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

Não há muito tempo, assisti a um espetáculo dos Goela Hiante, no qual Adolfo Luxúria Canibal declamou um poema[1] do norte-americano Lawrence Ferlinghetti, publicado em 1968, que descreve um instante no trânsito, junto a um sinal vermelho, que decorre num simples cruzamento de SãoFrancisco. Às nove da manhã, durante uns segundos, um Mercedes descapotável e um camião do lixo param lado a lado no semáforo, gerando um paralelo visual entre quatro pessoas que, habitualmente, se ignoram. Nesse momento, dois trabalhadores da recolha de lixo, na traseira de um camião, olham para um descapotável vermelho onde segue um casal jovem, muito bem vestido. Ele, de fato de linho, e ela de minissaia.  No quadro traçado por Ferlinghetti, ambos aparentam desfrutar da vida, de cabelos loiros ao vento e óculos de sol, enquanto seguem em direção ao gabinete de um arquiteto qualquer. O casal parece saído de uma revista de modelos ou de um anúncio televisivo. O futuro é-lhes promissor. Já os dois homens, de casacos de plástico vermelho e pendurados nos estribos do camião, segundo o poeta, tal como gárgulas mudas, olham de cima para baixo, para um “pequeno abismo, no alto mar desta democracia”.

Cá como lá, e hoje como ontem, os descapotáveis vermelhos e o trabalho dos arquitetos continuam a ditar “o sonho” que há dentro da imaginação de inúmeras pessoas. Se ter um carro desportivo, para muitos, é um sinónimo de estatuto socioeconómico, ter uma simples vivenda, num Portugal atual, é-o ainda mais. Para comprar uma casa ou um apartamento no concelho de Santo Tirso, em que o preço médio das habitações está nos 2.188 €/m²[2], é necessário ter ou ganhar muito dinheiro. O problema agravou-se e continua sem solução.  

Enquanto uns se manifestam – e levam cacetada – alertando para as dificuldades e/ou impossibilidades de (poder) viver num quarto ou numa casa simples, as redes sociais de alguns gabinetes de arquitetura do Vale do Ave e do país, mal têm um projeto em mãos, publicam imediatamente esboços de projetos de luxo, produzidos através de inteligência artificial (IA). A especulação imobiliária parece tão célere quanto a rapidez da IA. Mais do que arquitetura, alimentam sonhos aos internautas, idealizando vivendas, novas ou recuperadas, com piscinas panorâmicas e jardins suspensos, com Mercedes e Porsches nas garagens. Assemelham-se a quimeras saídas da Grande Babilónia que, ao querer plasmar os bairros de Miami Beach ou Beverly Hills, muitas vezes, só reproduzem o imaginário arquitetónico da grande mansão da Fazenda Nápoles, de Pablo Escobar: luxo ostensivo, desigualdade social e monumentalidade do poder pessoal.  

Uma sociedade que se digne deve ter consciência da importância da qualidade de vida dos seus cidadãos e das suas cidades. No entanto, em tempo de crise habitacional, parece que estamos obrigados a enterrar a cabeça na areia. Mesmo discutindo o assunto, não se apresentam respostas concretas ou eficazes. A arquitetura – enquanto arte e ciência – e os arquitetos – enquanto planeadores – são bem capazes de oferecer soluções sociais para famílias de todas as classes e isto está distante de ter lugar nos debates públicos sobre o tema. Em 1974, um quarto da população do continente vivia em edifícios que não possuíam o mínimo de condições de habitabilidade[3]. Só no distrito de Lisboa existiam 20125 barracas, onde habitavam 76480 pessoas[4]. No Porto, tal como no Vale do Ave, era elevadíssimo o número de famílias de operários que habitavam em barracas e ilhas, habitações minúsculas, insalubres e escondidas no interior dos quarteirões das vilas e cidades. Grande parte deste problema foi ultrapassado com a colaboração de muitos arquitetos como, por exemplo, Siza Vieira e Fernando Távora no Porto, ou Helena Roseta e Nuno Portas na Grande Lisboa. Estes e outros profissionais da área, ouvindo as pessoas no terreno e em conjunto com políticos e técnicos de diferentes áreas do urbanismo, conseguiram, ao longo dos anos, implementar políticas estatais e autárquicas, criar cooperativas de habitação e propagar crédito bancário especificamente direcionado para a resolução do problema.

Entre o deslumbre de um imaginário de abundância e as dificuldades reais do acesso à habitação, atualmente, todos temos de fazer parar a especulação imobiliária nos diferentes semáforos vermelhos das nossas cidades.


[1] “Dois homens do lixo num camião, duas pessoas bonitas num Mercedes”.

[2] Segundo a página www.Idealista.pt. Consultado em 16 de outubro de 2026.

[3] INE.pt

[4] Segundo o Recenseamento da Habitação de 1970.

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