[Editorial] “O que puder correr mal, um dia vai mesmo correr mal”

CRÓNICAS/OPINIÃO Diretor

1Nesta edição do Entre Margens apresentamos uma pequena análise aos números recentemente publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) relativamente à população residente em Portugal, centrando-nos, naturalmente, no município de Santo Tirso e seus vizinhos. A característica mais notória, a nosso ver, é o envelhecimento da população, ainda que com notável longevidade. O saldo natural da população (diferença entre nascimentos e falecimentos) é muito elevado, realçando-se, entre os concelhos vizinhos, o caso de Vizela, que registou mais nascimentos do que óbitos em todos os anos do último quinquénio. Qual será o segredo? Terá mais casais jovens? E, se for isso, resulta de uma adequada política de apoio à natalidade? Ou de promoção da construção de habitação de forma continuada, que promove a fixação dos jovens, algo que possa ter faltado nos concelhos vizinhos? São questões para reflexão, sendo certo que o ligeiro aumento populacional resulta da imigração. Aqui como por todo o país.

2A nova forma de manifestação por “acampadas”, iniciada em Madrid e rapidamente replicada no Porto e em Lisboa veio demonstrar a dificuldade dos governantes em prever e antecipar as motivações da população relativamente aos problemas do dia-a-dia. O problema da falta de habitação foi descurado durante mais de uma década quando devia ser equacionado como programa continuado ao longo de vários mandatos governamentais e municipais. A crise económica que originou a intervenção da Troika destruiu grande parte da capacidade construtiva, nomeadamente na nossa região e a pressão da imigração agravou a procura. A verdade é que só há pouco tempo se começou a ver, por cá, gruas ao alto e construções novas.

3A televisão, a janela por onde olhamos para o mundo, mostrou-nos, nos últimos dias, sinais muito preocupantes de instabilidade social, com destaque para as manifestações violentas em França. Na verdade, é demasiado simpático chamar-lhes manifestações, pois que se trata de violência pura, destruição e pilhagem. As imagens são demonstração de grave crise social e democrática. Social porque existem motivações relacionadas com questões de habitação, de emprego, que a crise energética está a ampliar. Democrática porque os deveres de cidadania e respeito pela liberdade e pelos direitos dos outros não são respeitados, a par de uma incapacidade dos dirigentes prever e evitar situações extremas.
A construção da União Europeia foi iniciada com o objetivo de impedir a repetição da guerra na Europa, no final da segunda guerra mundial. Esse objetivo pode estar ameaçado porque a economia europeia não produz a riqueza necessária para garantir o bem-estar social que era prometido e para garantir a defesa contra as ameaças externas do imperialismo serôdio da Rússia. E a submissão americana aos interesses russos por motivos não esclarecidos fez com que os Estados Unidos deixassem de se preocupar com os valores democráticos, dentro e fora do seu território e se tornassem promotores do descrédito da democracia.
A polarização política em fações opostas e extremadas, acompanhada do desaparecimento de alguns partidos históricos é fenómeno que se espalha por vários continentes e abre o caminho ao desencanto com o sistema democrático e ao apelo à emergência de ditadores. O sonho da Europa em paz e em democracia e com condições de vida e de segurança adequadas para todos está a transformar-se em miragem. E juntando a isso os efeitos das alterações climáticas, as consequências da exaustão de recursos minerais e energéticos, a desregulação dos mercados de combustíveis, é inevitável que fiquemos preocupados. Porque, como postulou um tal Murphy, o que puder correr mal, um dia vai mesmo correr mal.

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