[Crónica] “Pilim-grinos” do Caminho de Santiago

CRÓNICAS/OPINIÃO Napoleão Ribeiro

A primeira vez que fui a Santiago de Compostela foi em 1989/90, por volta dos meus 16 ou 17 anos. Tal como muitos, mesmo sem compreender a cidade, fiquei fã. Os componentes de estilo românico da catedral fascinaram-me, muito em especial, o Pórtico da Glória, majestosa composição de músicos e instrumentos musicais, tal como o Museu do Povo Galego e a arquitetura da cidade velha, repleta de estudantes da universidade local, uma instituição de renome. À época, a movida de Santiago tinha o condão de concentrar todo o tipo de gente em duas ou três ruas do casco histórico (a rua do Franco, a rua Nova e a rua de São Pedro), uma mescla de estudantes galegos, hispano-americanos, punks, betos e hippies. Entre estes, evidenciavam-se algumas figuras, de trajes de peregrino neomedievais, que tocavam gaita-de-fole e pediam pelas ruas. No meio do ambiente acolhedor, o visitante mais atento apercebia-se também da corrente nacionalista galega, que, tal como hoje, pichava nas paredes milhares de frases relativas às causas linguística e independentista.
À época, os peregrinos pedestres eram muito poucos (no biénio 1985/1986 foram 2491) e alguns eram hippies e/ou “freaks” seminómadas, que por ali passavam e abancavam meses ou anos. Quem percebia um bocadinho de história, fazia a analogia destes com os peregrinos de Santiago medievos, há muito desaparecidos, capazes de caminhar milhares de quilómetros para chegar ao então maior centro devocional da finisterra da Europa. O que mais se via, eram sobretudo romeiros, que aí chegavam em excursões domingueiras de autocarro, de índole paroquial ou religiosa, como foi o caso da minha primeira visita. A maioria, era proveniente de diversos pontos de Espanha, mas também do nosso país, sobretudo gente do Entre-Douro-e-Minho. Os portugueses visitavam, principalmente, a catedral e evidenciavam-se pelos merendeiros nos jardins e por comportamentos característicos de pessoas iletradas. Os grupos de excursionistas espanhóis que ali afluíam não eram em nada diferentes. Eram viagens domingueiras, conhecidas como “turismo de garrafão”, onde o apreço pela arte e pela natureza não eram tidos em conta, onde valia, especialmente, o convívio da viagem e na fé religiosa até ao sepulcro de um apóstolo muito divulgado nos discursos dos párocos, mas pouco entendido pelos crentes.

Legenda: OPENAI – Cartão multibanco peregrino [Imagem gerada por inteligência artificial]. 2026. Produzida através do ChatGPT a partir de instruções do autor.


Com a criação dos itinerários compostelanos, por parte do Turismo da Galiza, [Caminho Francês, em 1993 e Caminho Português em 2004(?)], lentamente, começaram a chegar à cidade peregrinos-pedestrianistas. Nesses itinerários, fundaram-se albergues que funcionam, sobretudo, com o apoio de voluntários, paróquias e autarquias. Simultaneamente, o interesse económico-turístico originou competições comerciais e discussões que gravitavam entre a “autenticidade” das marcações de caminhos mais antigos e os interesses económicos locais da hotelaria e restauração. Assim, os ministérios do turismo de Espanha e Portugal viram-se obrigados a legislar e a oficializar determinados percursos, muitos deles contestados por inúmeras pessoas, empresas e associações.
Porém, a aposta turística teve resultados e o número de “peregrinos” explodiu. Em 2025 foram mais de 530.000. A massificação gentrificou totalmente Santiago de Compostela, onde as gentes saem dos bairros históricos para dar lugar a alojamentos. Na realidade, as classes média e baixa já não têm rendimentos para aí viver. O comércio tradicional deu lugar a novas lojas direcionadas para os turistas.
O impacto chegou também a Portugal, sobretudo ao Porto, onde o número de agentes turísticos que trabalham o Caminho aumentou substancialmente. Muitos destes, tal como alguns historiadores, para obter notoriedade e rendimento, transformam-se eles próprios num produto vendável, proferindo, nas redes sociais, discursos de imaginários que a história nunca corroborou. Outros, mais religiosos, sedimentam esses mesmos discursos na lógica da causa religiosa, em que o discurso místico da sua fé supera a ciência. Quer uns, quer outros, para vender, através de um marketing pseudocultural, usam narrativas mágico-religiosas que captam o interesse do público, mas que não passam de suposições ou mentiras. No fundo, hoje, os peregrinos são porta-moedas ambulantes da indústria global do turismo.

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