Sete e pouco da manhã. O comboio urbano da linha de Guimarães segue em direção ao Porto. Apesar de cheio, e à medida que a composição se aproxima do destino, os passageiros apinham-se cada vez mais. No seu interior, um cheiro agradável a fragrâncias dos óleos das rastas dos inúmeros migrantes que se deslocam para o trabalho. Longe vão os tempos em que os odores que caracterizavam os velhos comboios da via estreita eram os óleos de motor das automotoras ou o cheiro do tabaco que os passageiros fumavam, eternamente, nos vestíbulos de todas as composições.
A viagem prossegue e três mulheres brasileiras entram e ficam ao meu lado. Vamos todos em pé. Os seus traços físicos, euro-afro-ameríndios, sintetizam a miscigenação do país irmão. Pela conversa, são recém-chegadas. Falam das lutas administrativas dos procedimentos da AIMA e das regras laborais que têm de enfrentar na empresa onde agora trabalham. Entendo que, para as mesmas, tudo é novidade no trabalho: regras para ir à casa de banho e a possibilidade de poderem falar durante a laboração. “Trabalho é com os braços e não com a boca!”, refere uma delas. Puerilmente, na roda, as três brincam com as botas de trabalho que agora têm de usar, calcando as biqueiras de aço de umas e de outras. Uma queixa-se da dureza causada pelo uso contínuo deste novo tipo de calçado. Outra aconselha-a a adquirir umas palmilhas na Decathlon. Subitamente, saem e desaparecem em direção a um espaço de produção qualquer.
Uma senhora idosa entra com um homem que aparenta ser o seu marido. Pelo boné e pela roupa cheia de tinta, ele parece ser pintor da construção civil. A senhora usa chinelos e um casaco de malha por cima de uma bata. Percebe-se que, apesar da idade avançada, ainda trabalham. Tal como as brasileiras, a senhora não está preocupada com o tabu do silêncio generalizado na carruagem e faz uma chamada de telemóvel, numa conversa de tom muito alto. É uma “mulher do Norte”, entenda-se. De facto, a sua liberdade de falar num tom elevado e espontâneo, não se deixa reprimir pelas convenções artificiais do “establishment” matinal daquela composição. Afinal, até diz piadas e gera sorrisos e olhares indiscretos. Percebo que fala com a filha sobre as inúmeras bagatelas do saco de plástico que jaz no seu colo.
À sua frente, uma executiva, requintadamente vestida e de salto alto, com ar de modelo, não se contém e, muito simpaticamente, ri-se das peripécias e caralhadas da senhora. Há também mais executivos. Na sua maioria, são parcos no falar. Tal como os inúmeros estudantes de sapatilhas que povoam os assentos e lugares em pé. A sua socialização provém mais dos fones, do iOS e do Android do que, propriamente, dos colegas de gabinete ou de universidade que seguem sentados ao seu lado. Viajam numa cápsula estereofónica matinal, devidamente protegida dos raios UV pelos seus óculos de sol.
De manhã, tal como as velhas automotoras da via estreita, o comboio urbano não deixou de levar gente para trabalhar. Já não carrega gente descalça nem soldados, fiandeiros, tintureiros, tecelões, escriturários, empregados de comércio e doutores. São mais migrantes, “Ubers”, “Glovos”, meninas do shopping, técnicos superiores e estudantes. Entre o Ave e o Douro, vai repleto de transformações sociais, com diferentes distâncias e proximidades, horários e trabalhos, preocupações e confortos, línguas e tecnologias. Chegado ao Porto e abertas as portas, continua a deixar sair chinelos, botas de biqueira de aço, sapatilhas e saltos altos para os sítios que edificam a cidade.
