Ouço por todo o lado, em tempo de férias, o mesmo lamento: “Estou mais cansado do que quando trabalhava”. Antes, esta queixa era património exclusivo dos pais de filhos pequenos, vítimas da logística infernal que transforma um dia de praia numa operação militar. Mas algo mudou. Agora, o lamento é transversal. Solteiros, casais sem filhos, reformados – todos chegam ao fim do dia com a estranha sensação de não se sentirem relaxados, nem entretidos, apenas vagamente exaustos.
Nas últimas semanas, tenho observado amigos a descreverem a frustração de não conseguirem “desligar”, a ansiedade gerada pelas imagens idílicas que os influencers lhes atiram para o ecrã, o tempo que escorre pelos dedos enquanto criámos representações de nós mesmos numa rede social definida por marcas e comportamentos que exigem uma presença constante de aparências de felicidade como um modo de se relacionar. A fotografia do pôr do sol, a escolha do filtro que melhor procura traduzir o estado de espírito ideal, as respostas no Whatsapp a mensagens de trabalho armadilhadas com “só um minutinho”, e o deslizar infindável do ecrã até que a luz do dia se apague.
O capitalismo fez da nossa “atenção” uma nova mercadoria que tem vindo a aperfeiçoar. O “tempo livre” tornou-se um frenético scroll com o objetivo de gerar lucro, ao ponto de tornar-se uma compulsão, uma espécie de inquietação que nunca encontra o seu objeto porque o objeto é, ele próprio, a promessa angustiante de uma realização que nunca chega. O tédio, que outrora fora a matéria-prima da criatividade, tornou-se a má consciência do nosso tempo livre. Temos medo do “vazio”, pelo que enchemos cada segundo com estímulos. E ficamos ainda mais vazios.
O turismo é, também, uma expressão eloquente desta alienação. Apesar de nascer da necessidade de escapar à gaiola produtiva, transforma-se ele próprio numa mercadoria repleta de paradoxos. Buscamos lugares intocados e transformamo-los em destinos trendy. Buscamos comunidades autênticas e forçamo-las a representar a sua autenticidade diante das nossas lentes.
A questão que me assalta, enquanto observo este frenesim, é esta: como resgatar a natureza genuína do tempo livre? O tempo dos projetos pessoais, da convivência descontraída, da criação. Como regressar àqueles dias em que não sabíamos que dia da semana era, em que o tempo se dissolvia em conversas, em pura presença – ao dolce far niente que os italianos elevaram a património imaterial?
Não tenho a soberba de ter a resposta definitiva. Mas considero que devemos, pelo menos, inverter a tendência que origina e promove os problemas levantados. Porque, apesar de cada vez mais conectados, tais experiências demonstram um isolamento crescente. Daí que a resposta política deva passar, em primeiro lugar, pela reversão desse estado.
E essa resposta, desenganem-se, não está na nostalgia de um passado idílico que nunca existiu, nem na compra de aplicações de meditação que o mercado já tratou de embalar com preço e assinatura mensal. A resposta está na política. Precisamos de reivindicar o que alguns chamam de “luxo público”: parques bem cuidados, bibliotecas abertas, piscinas municipais, albergues da juventude, colónias de férias, oficinas públicas, excursões organizadas que não sejam apenas mais um pacote turístico. Precisamos de políticas que devolvam à cidade os seus espaços de convívio, para que a Netflix não seja o único refúgio possível. Precisamos, sobretudo, de recuperar a ideia radical de que o descanso e o lazer não são um elo na cadeia produtiva, mas um fim em si mesmos – um espaço de aprendizagem, de criação e de encontro. E, no final de contas, até de nos arrogarmos no direito de reaprender a arte subtil de não fazer nada.
