Entre setembro de 2025 e junho deste ano, José Pacheco publicou neste jornal 14 textos sobre a Escola da Ponte. Melhor: sobre o projeto pedagógico que designou por “Fazer a Ponte”, projeto que desenvolveu na referida escola, onde foi professor desde 1976.
Estando anunciada para o próximo setembro a comemoração de 50 anos da Escola da Ponte, importa distinguir entre a história da escola e a história do projeto. A escola nº1 da Ponte, nas Aves, foi criada, cerca de 1930, num edifício mandado construir por “Manuel da Silva Costa e Claudina Ferreira da Silva para nele ser colocada a sua enteada e filha, a menina Maria Arminda Ferreira da Silva”. Era uma época de crise e o governo da “Ditadura Nacional” validou a proposta. Era, por isso, a escola da Dona Maria Arminda e, quando José Pacheco tomou posse do lugar, funcionava ainda no edifício original, degradado por décadas de uso. Não faz sentido, portanto, falar de 50 anos da Escola da Ponte.
O projeto “Fazer a Ponte” foi desenvolvido ao longo do percurso profissional de José Pacheco em Vila das Aves, pelo que a comemoração funciona melhor como tributo ao autor do que ao projeto em si, já que os seus aspetos mais originais foram forjados ao longo da carreira profissional. Determinante para o desenvolvimento das ideias de trabalho cooperativo e ausência de salas de aula foi a construção, no mesmo local da escola antiga, de um novo edifício do tipo área-aberta, “ocupado” em 1984. Ao contrário de outros locais, em que se ergueram paredes, a fechar espaços que os arquitetos tinham deixado abertos, Pacheco e as professoras do “núcleo da Ponte”, inovaram. O trabalho docente deixou se ser um esforço solitário e solidificou-se um modelo pedagógico e relacional novo com a população escolar. Em várias ocasiões testemunhámos a existência de um ambiente escolar absolutamente extraordinário.
Em 1998, a visita do Presidente da República, Jorge Sampaio, à Ponte foi o momento maior da notoriedade do projeto “Fazer a Ponte”, que entretanto já era reconhecido como experiência pedagógica de excelência.
De algum modo, as (in)definições da política educativa condicionaram a evolução da escola, que, por ter dado provas de trabalho muito válido com alunos de necessidades educativas especiais, que teriam vantagem em continuar a ser apoiadas no 2º ciclo, solicitou a extensão do projeto a esse ciclo. E porque se tinha antecipado um agrupamento de escolas e se começava a falar de escolas básicas integradas, a Escola n.º 1 da Ponte foi transformada em Escola Básica Integrada de Vila das Aves/Negrelos, do agrupamento do mesmo nome, o que trazia o 3º ciclo, por arrasto.
Porque era fundamental, para a extensão do projeto, aferir da qualidade do ensino, o ministério encomendou uma avaliação externa, que foi realizada por uma equipa universitária de Coimbra. O seu relatório de avaliação foi concludente sobre a excelência do ensino e validou a extensão do projeto ao terceiro ciclo, recomendado a celebração de contrato de autonomia e a resolução dos problemas de exiguidade das instalações.
Foi conturbado o início do terceiro ciclo (2003), com protestos dos pais e manifestações várias. E foram atribulados os anos seguintes, em que foram usadas várias soluções precárias quanto às instalações. A autonomia, concedida em 2004, não resolveu os problemas da contratação de professores, que não foi autonomizada. Entretanto, a Câmara Municipal de Santo Tirso investia na construção da Escola Básica de Negrelos, destinando uma parte à Escola da Ponte, e, em 2012 o ministério forçou-a a instalar-se na freguesia vizinha.
José Pacheco, aposentado desde 2004, escreveu um dia uma bela síntese de vida: “A Ponte é, como qualquer outro, um lugar de chegar, de ficar e de partir. Um lugar onde deliberada e intencionalmente se chega para (com outros!) fazer crianças mais felizes. Um lugar de onde uns partem para levar sementes de sonho para outros lugares. Um lugar de onde outros partem, discretamente, para deixar que o sonho prossiga”.
E o sonho da Escola da Ponte prossegue com a dedicação de docentes e pais que, seguramente, fazem o melhor por cumprir o legado recebido. Não importa em que margem do rio Vizela.
