[Reportagem] Retratos de quem vai e de quem vem: Lídia Cruz

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Com um pé na arquitetura e outro na música, Lídia Cruz viveu uma Berlim “vibrante”

Pelas ruas de Berlim sente-se um impulso criativo latente. Numa cidade de alcance global, onde cada esquina tem uma história para contar, não é nas cúpulas fechadas que se desenha o espírito de uma metrópole no centro da Europa. Como Lídia Cruz, 36 anos, rapidamente descobriu, Berlim vibra com aqueles que têm “vontade de criar coisas públicas”, acessíveis a todos.

O “fascínio” é compreensível. Aos 22 anos, a estudante de arquitetura na Universidade do Porto candidatou-se a uma bolsa de estágio com a possibilidade de trabalhar durante um ano num escritório que a acolhesse na Europa. A ideia, recorda, era “autonomizar-se”. Viveu sempre com os pais, mesmo na faculdade, e a vontade de “explorar” era muita. Candidatou-se sem grandes expectativas, o que significou que, quando recebeu a notícia que tinha sido escolhida, não tinha sequer pensado para onde ir.

“Em retrospetiva, acho que sempre senti uma atração pela Alemanha e por Berlim em especial, muito relacionada com a questão da música e da arte”, assinala. “É uma cidade muito vibrante”.

O gosto pelo desenho da jovem Lídia levou-a a constituir um grupo de amigos onde as artes e a música se tornaram linguagem corrente. Era aquela adolescente que passava os tempos livres “rodeada de música”, em concertos ou a fazer compilações em CD. Chegou a estudar flauta transversal, mas foi na bateria que se encontrou. E a arquitetura floresce no mesmo contexto, desde cedo, com uma simples pergunta feita ao pai.

“Quando tinha cinco anos perguntei ao meu pai o que queria ter sido e ele respondeu arquiteto. Perguntei-lhe o que fazia um arquiteto. Era uma pessoa que construía casas para outras pessoas viverem. Disse, vou fazer isso. E cumpri esse destino”, relembra.

Há duas fases na vida de um emigrante. Primeiro, a “lua de mel”. Onde tudo é novidade, tudo é incrível e muito melhor do que até aí. Mas com o passar dos meses, começa-se a formar o “desencantamento”. As saudades começam a apertar, a rotina assenta, tudo se torna mais real. “Percebemos que as pessoas vivem mediante um set de regras que ninguém te diz, mas que bem ou mal tens de aceitar e interiorizar, senão vais-te dar mal”.

Ao fim de um ano, apesar de se sentir integrada, já com um grupo de amigos formado, a situação profissional num “escritório pequeno onde havia muita tensão”, fê-la largar tudo e procurar outras oportunidades. Mas desta feita sem a rede de segurança que a bolsa lhe proporcionava. Neste momento, ficou com duas opções: “arrumar a mala” e regressar ou não dar aquela experiência como perdida e continuar.

“Estive um ano sem conseguir trabalhar em arquitetura. Trabalhei num café, comecei a dar aulas de bateria a um miúdo alemão e a trabalhar com uma artista plástica austríaca que precisava de alguém para fazer modelos 3D, ao mesmo tempo que continuava a mandar currículos”, revive.

Fotos: Yasmine Moradalizadeh

Os meses passavam e com a escassez de oportunidades na mão, a salvação chegou por intermédio da música. Com a lendária cena musical de Berlim à disposição, Lídia ia explorando o mundo à sua volta ao ritmo intenso da bateria. Colocou anúncios online, tocou com várias, bandas, integrou ensaios, mas o click acabou por surgir num grupo cem por cento feminino.

“A linguagem musical é universal e desbloqueia tudo o resto”, argumenta. “Foi a principal forma que tive de conhecer pessoas e acabas por criar laços muito profundos, porque se trata de uma relação intensa. E isso pôs-me completamente à vontade para testar o meu alemão de forma descontraída. Foi o meu laboratório”.

Ao longo da década enquanto residente na capital alemã foi desenvolvendo a sua atividade de arquitetura por vários escritórios, acabando mesmo por abrir a sua própria prática, em paralelo. Diz que a diferença entre arquitetura alemã e a portuguesa, sobretudo da Escola do Porto, está relacionada com o conceito artístico como meio colocado ao serviço da sociedade. Em Berlim, é muito mais técnico.

“Há uma preocupação em desenhar detalhes construtivos, para que a arquitetura funcione mesmo, seja resistente e eficiente”, esclarece. “Penso que trazer estes ensinamentos, esta poesia, me ajudava no trabalho lá. Mas aprendi imenso com eles”.

Ao fim de dez anos, Lídia Cruz decide “fechar o ciclo”. A dimensão de uma cidade como Berlim é avassaladora e também cansa. Sentiu que estava a precisar de paz. Regressou como partiu. Sem propostas, só com vontade própria de abrir um escritório em seu nome e trilhar o seu próprio caminho. E é isso que tem feito.

Diz que o aspeto principal que retirou da sua experiência numa capital centro europeia foi “uma visão mais profunda do mundo”. Sempre sentiu que, mesmo enquanto uma jovem mulher, numa profissão dominada por homens, nunca foi menosprezada. “Se soubesse trabalhar, se soubesse do que estava a falar, se me aplicasse, era ouvida, percebida e valorizada”. Essa é a visão que Lídia gostava de trazer para cá, porque ainda há muito do inverso.

Berlim não é uma cidade apenas. É um cosmos em si mesma. Consegue ver algumas semelhanças com o espírito de uma cidade como o Porto, em ponto mais pequeno. No associativismo, na vontade que os portuenses, tal como os berlinenses têm de desenvolver atividade “por amor à camisola”. Como se te dissessem que, algures nestas ruas, quaisquer que sejam os teus interesses, há um lugar para ti, aqui.

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