[Opinião] A democracia tem sentido de humor

Ana Isabel Silva CRÓNICAS/OPINIÃO

Na série The West Wing, que recomendo vivamente a todos os que se interessam por política, após umas eleições intercalares sem grandes alterações, Josh Lyman comenta: “Depois de quatro meses e 400 milhões de dólares gastos, ficou tudo na mesma.” E conclui: “E depois dizem que a democracia não tem sentido de humor.” Esta conversa resume uma ideia frequentemente associada às eleições norte-americanas em que campanhas longas e caras acabam por produzir resultados muito semelhantes aos anteriores.

As eleições intercalares (“midterms”) realizam-se a meio do mandato presidencial norte-americano. Este ano, acontecerão em novembro e irão eleger todos os membros da Câmara dos Representantes e parte do Senado. Estas eleições determinam qual dos partidos controla o Congresso e funcionam, tradicionalmente, como uma avaliação popular ao presidente em funções. Historicamente, o partido que não está na Casa Branca tende a ganhar as eleições intercalares. Caso os democratas recuperem o controlo da Câmara dos Representantes ou do Senado, isso significará um travão parcial às políticas de Trump.

No mês de maio aconteceram as primárias em alguns estados. No Kentucky, o congressista republicano Thomas Massie perdeu frente a Ed Gallrein, candidato apoiado por Donald Trump. Foi uma das corridas mais caras da história da Câmara dos Representantes. Massie estava no Congresso desde 2012 e tornou-se um dos poucos republicanos a criticar a política económica e intervenção militar de Trump. Foi também um dos republicanos a defender a divulgação completa dos “Epstein files”. Trump chamou Massie de “idiota” e “falhado”, acusou-o de ser “desleal aos Estados Unidos da América” e, após a derrota, celebrou dizendo que “Era um mau homem. Mereceu perder.”

Lauren Boebert, congressista Republicana apoiou também a divulgação dos “Epstein files”. Trump chegou a ameaçar apoiar um adversário contra ela no Colorado, algo que acabou por não acontecer. Marjorie Taylor Greene, outrora uma das maiores apoiantes de Trump, também entrou em conflito com o presidente durante o debate sobre os documentos, criticando republicanos que tentavam bloquear a sua divulgação, acando por se afastar do cargo no início do ano.

Muitos eleitores republicanos criticam a política externa num momento em que os preços continuam a subir drasticamente nos Estados Unidos. No entanto, apesar desse descontentamento, a maioria continua sem responsabilizar diretamente Trump. Apesar de criticarem as políticas e sofrerem com elas, os apoiantes de Trump raramente o criticam. Os “Epstein files” tornaram-se também um risco para quem defende a sua divulgação, e atacar Trump dentro do Partido Republicano parece significar, cada vez mais, uma derrota eleitoral.

No entanto, do lado democrata, o maior ataque a Trump parece produzir resultados diferentes. Apesar do domínio republicano em muitos estados, começam também a surgir sinais de mudança à esquerda. Na Georgia, movimentos socialistas têm vindo a ganhar espaço em eleições locais. Kelsea Bond, do movimento Democratic Socialists of America (DSA), destacou-se pela defesa da mobilidade sustentável, oposição aos data centers e taxação dos mais ricos, ganhando na corrida para a Assembleia Municipal, com mais de 70% dos votos. Outro candidato da DSA, Mathewos Samson, ganhou destaque nas primárias para a Câmara dos Representantes da Georgia, passando agora ao run-off, ou seja, à segunda volta das primárias. Embora localizados, estes movimentos mostram que existe espaço para o crescimento de alternativas mais progressistas dentro da política norte-americana.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

8 + 6 =