[Opinião] Rescaldo Eleitoral

Ana Isabel Silva CRÓNICAS/OPINIÃO

Nestas últimas eleições, votámos pelos valores europeus. Numa União Europeia que diz defender a paz, os direitos humanos e a solidariedade, vemos como os últimos tempos políticos têm contrariado tudo isto. No Parlamento Europeu, foi votado o Pacto de Asilo e Migração que não respeita os direitos humanos.

Como diz o ativista português Miguel Duarte: “Criminalizar a migração não faz com que venha menos gente. Faz com que morra mais gente”, lembrando que “mais de 30 mil pessoas morreram no Mar Mediterrâneo nos últimos 10 anos”. Este pacto terá também como resultado “aumentar o número de pessoas a trabalhar sem os direitos que os europeus já conquistaram há muitos anos”.

O apoio a Israel e ao genocídio na Palestina mostra como estes valores já não são o baluarte de quem representa a UE. Durante um comício da AD com Ursula Von der Leyen, um grupo de jovens exercia o seu direito de expressar indignação sobre a posição inaceitável da presidente da Comissão em relação à Palestina. Ela respondeu: “Se estivessem na Rússia estariam presos em 2 minutos”. Mas em Israel também. Porque é que condena a Rússia e não Israel? E em Portugal estes manifestantes também foram presos em poucos minutos. Mas estes jovens não se calam e as suas ideias fazem caminho.

Von der Leyen, aparentemente, atrasou um relatório da UE que critica a Itália por atentar contra a liberdade de imprensa, de forma a ter o seu apoio para um segundo mandato como presidente da Comissão Europeia. António Costa sempre a apoiou, mesmo sabendo das suas posições em relação à Palestina. Será também um joguinho de política de quem acha que vai ter um cargo europeu e precisa de amigos?

Dizem que o Banco Central Europeu (BCE) é independente e apolítico. Mesmo com a inflação a abrandar, a diminuição das taxas de juro foi sempre adiada. Mas, na quinta-feira da semana das eleições europeias, decidiram baixá-las. Terá sido para influenciar as pessoas e reduzir as críticas contra o BCE? Sabemos que estamos a ser roubados todos os meses porque o BCE põe os interesses milionários das finanças à frente das nossas necessidades, como a habitação. Mas quase nenhum político ataca a grande vencedora destas eleições, a alta finança.

Por isso, era tão importante que a força do voto elegesse forças de esquerda para fazer o sistema tremer. Mas a esquerda, tanto europeia como em Portugal, teve uma pesada derrota. A falta de uma perspetiva e a incapacidade de mobilizar uma mensagem de esperança pode explicar este fenómeno.

Em França, foram já convocadas eleições após a vitória esmagadora do partido de Marine Le Pen. No entanto, vários países conseguiram manter bons resultados para as forças de esquerda. Por exemplo, a França Insubmissa aumentou o número de deputados. O Partido do Trabalho belga duplicou a sua representação. Em Itália, a Aliança dos Verdes de Esquerda, juntando a Sinistra Italiana e os Verdes, elegeu seis eurodeputados. Nos países nórdicos, as forças de extrema-direita perderam representação, aumentando o apoio a forças de esquerda e ecologistas.

Esperam-se tempos difíceis na UE e no resto do mundo. A governação que tivemos até agora falhou as novas gerações na esperança de um mundo melhor. A extrema-direita cavalgou este descontentamento. Mas sabemos como não resolverá, até agravará, as nossas condições, tornando mais ricos os já super-ricos e empobrecendo o resto da população. Mas, deixando o desespero e a falta de esperança tomar conta de nós, não estaremos a fazer o que é necessário. Outras forças se reerguerão, com uma nova mensagem de esperança, contra os poderes instalados e mobilizadora por mais direitos. Essa força chegará!

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